Ainda

Por: Maria Luiza Salomão

Alguma coisa, desde pequena, me faz aproximar de gente assim, quieta, com um olhar interessado e reservado. Alguém que a gente diria ser triste, mas que guarda em si um deserto inexplorado... uma floresta virgem... um mar misterioso... um céu nublado, cheio de possibilidades... de chover, de se abrir em nuvens brancas, com nesgas azuis.

Vejo essas gentes em todos os lugares. Elas me inspiram aquela tristeza que não é triste, como disse Mia Couto. Aquele vazio que é meio cheio. Aquele cheio que é meio vazio.

Alguns escritores são assim, reservados, diplomáticos, e são grandes sem estardalhaço, falando de coisas simples, cifradas, pequenas somente para quem esnoba aquilo que desconhece, ou quem não se permitiu sentir aquilo que traz uma saudade infinda do que não se viu, não se sentiu, não se pensou, não se viveu... ainda.

Adora essa palavrinha, ainda. Ainda que. Ainda não. Ainda então, ainda que (afinal), ainda que (apesar), ainda que (senão), denotando alívio, lamento e desenlace feliz, estados com esperança ou estados sob alguma condição. O som entrelaçado de vogais me agrada, e a promessa que a palavrinha ainda guarda tem o tom exato de uma tristeza inspiradora. Uma tristeza gestante.

Não sou ainda. Não fui ainda. Não serei, ainda que...

(todos os tempos, e diferentes estados de ser cabem na palavra ainda).

Ainda é palavra meio cheia e meio vazia, como a gente que ainda não conheci, não conheço,e ainda agora posso não conhecer. Ainda mais... ..., ou menos ainda....

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