A odiosa e infernal música do Castelinho

Por: Everton de Paula

A internet traz aspectos positivos quando trata da condensação de obras literárias clássicas ou sua apresentação na íntegra; quando facilita e agiliza pesquisas em todas as áreas do conhecimento humano; quando nos atualiza com notícias recém-inseridas por jornais virtuais; quando nos coloca em contato audiovisual com concertos musicais extraordinários... Mas há o lado profundamente negativo que são, por um exemplo, as fofocas e revanches verbais trocadas virtualmente pelo danoso Facebook. É claro que sempre haverá alguém de plantão para dizer algo parecido a “quem se incomoda que se retire” ou “basta desligar o computador”, ou ainda “mude de link”, mas o fato não é tão simples assim.

Sempre apreciei a música erudita. Desde cedo, após a alfabetização, interessei-me pela literatura. É bem provável que tenha sido iniciado neste cenário de exercícios intelectual e espiritual pelas obras de Monteiro Lobato. Sempre me fascinaram as artes plásticas, a arquitetura, notadamente a pintura a óleo sobre tela, em especial as de gênero realista e os impressionistas. Com incentivo de meu pai, em tenra idade iniciei meus estudos de piano, tendo cursado conservatório musical em Franca. Frequentei por mais de cinco anos consecutivos o Festival de Inverno de Campos de Jordão, em que recebi aulas de regência e canto coral do maestro Eleazar de Carvalho, coordenadas pelo famoso musicólogo dr. Hugh Ross, da Orquestra Sinfônica de Londres. Fundei em nossa cidade o grupo coral Mário de Andrade que, por mais de uma década, apresentou-se em Franca e cidades distantes, sempre com um brilhantismo a parte, graças à performance de seus participantes.

Estive em Paris onde cursei programas de língua e civilização francesa no Instituto Católico de Paris e na Sorbonne, com extensão na Universidade de Liège, na Bélgica. Como apêndices do currículo, as inesquecíveis visitas a museus mundialmente famosos como o Louvre, e viagens inesquecíveis para conhecer a história e civilização em torno dos castelos do Vale do Loire, a noroeste da França.

Cursei Letras na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Franca com professores doutores renomados como Alfredo Palermo, Yara Frateschi Vieira, Páschoa Baldassari Guardiano, Antonieta Barine, João Alves Pereira Penha. Interessei-me pela criação literária e tornei-me colaborador cultural do jornal Comércio da Franca, em que escrevo há mais de 40 anos. Idealizei e fundei a Academia Francana de Letras. Obtive conceito máximo na defesa de minha dissertação de mestrado que versava sobre educação, e ora trabalho na dissertação de minha tese de doutorado que versa sobre problemas de serviço social.

Por que essas citações? Pelo fato de inferir que todos nós temos uma história de vida, de formação cultural e que esperamos que a vida continue a nos retribuir com o mesmo lado da moeda. Assim é com meu vizinho, com você, leitor, etc.

Vivi para o erudito e amei o que fiz e faço. Mas percebo hoje que tanto estudo e preparo foram para mim um pouco em vão. Esperava uma vida cultural repleta de eventos, que minha cidade se preocupasse com a arte e que a levasse com níveis de excelência aos seus mais de 300 mil habitantes. Qual o quê! Vejamos sob este prisma: provavelmente a situação geográfica de Franca tenha me levado forçosamente a um cenário de frustração intelectual, salvo as condições de trabalho que exerço na universidade.

Aí veio a vida e me pregou uma peça inesperada, zombeteira, doída. Os espiritualistas chamam a experiência que vivo hoje de carma.

Passei a residir próximo ao clube Castelinho. E tendo em vista que Franca não apresenta nem oferece regularmente boas e consistentes peças de teatro, apresentações de música clássica, exposições notáveis de artes plásticas, sou obrigado a ouvir toda sexta noite, sábados tarde e noite, domingos tarde e noite músicas sertanejas, pagode e forró num volume inarrável, odioso, infernal, impossibilitando-me de comunicar verbalmente dentro de minha própria casa, ou de assistir a um programa de TV, ou ouvir uma música de minha preferência, ou simplesmente ler uma notícia ou livro. Trata-se de uma agressão sonora que causa sentimento de ódio e impotência, pois não há o que fazer, a não ser calar e ouvir obrigatoriamente as abobrinhas musicais. Os simplistas diriam: “Ora, os incomodados que se retirem... Mude de casa!” Sucede que não quero mudar de minha casa e gostaria imensamente de ser respeitado nos limites dela. O Castelinho tem seu direito de fornecer entretenimento musical aos seus associados, é sua função, mas que o faça dentro de seus salões e num volume que não interfira no cotidiano dos cidadãos que moram em suas adjacências. Aos que já me criticaram vou avisando: quando para cá mudei, o Castelinho era um clube civilizado, respeitador dos direitos dos cidadãos circunvizinhos. Levei isto em conta na hora da mudança. Esse fato de executar músicas em volume prejudicial à saúde e ao estado de humor de qualquer criatura é praticamente novo. Em Ribeirão Preto, o Ministério Público acabou com a poluição sonora dos eventos da tradicional Sociedade Recreativa. Exigiu obras físicas que não deixassem “vazar” o som dos eventos musicais. Seria este o caminho? A diretoria do Castelinho não poderia, por uma questão de civilidade e respeito à população de alguns bairros francanos, proceder a reformas infraestruturais de maneira a minimizar o impacto do volume indescritível de suas músicas? Parece que não: sai mais barato esgoelar livremente sertanejas e pagodes que acatar a vontade de milhares de cidadãos.

Há anos, alguns bairros de Franca sofriam com o ar empestado pelo irrespirável fedor dos detritos químicos que os curtumes despejavam nos córregos urbanos. Com a vinda do Distrito Industrial, praticamente solucionou-se o problema. Quer dizer, houve um tempo em que a municipalidade preocupava-se com o bem-estar de seus cidadãos, e tomava providências práticas e funcionais. Hoje não. Talvez o foco seja o trânsito... Hoje, moradores do bairro Santa Rita (principalmente) sofrem com as ondas sonoras vindas do Castelinho, plenas de sofríveis arranjos musicais, péssimo gosto de estilo, terríveis interpretações, num volume inaceitável por pessoas civilizadas. Há ainda outro prejuízo pesado: a desvalorização imobiliária em torno do Castelinho.

Não quero mudar de lugar. Gosto do bairro e em especial de meus vizinhos de rua. Aprecio o conforto de minha casa. E aborrece-me saber que não há uma única autoridade no assunto que faça levar a diretoria do Castelinho a se sensibilizar com o sofrimento de mais de 5 mil cidadãos que não querem ouvir suas músicas sertanejas esgoeladas nos finais de semana, o que talvez agrade a uns poucos cem ou duzentos associados, obviamente muito alegres e motivados pela bebida.

Conversei a respeito deste assunto abominável com um advogado amigo meu. E ele ironicamente sugeriu haver uma única saída para me livrar da odiosa e infernal música sertaneja do Castelinho: o suicídio!

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