Roupa nova

Por: Chiachiri Filho

Não tenho paciência para experimentar roupas novas. É um ato que me irrita, que me aborrece. Principalmente para nós, os mais robustos, não há roupas que se amoldam perfeitamente em nosso corpo. As mangas da camisa, invariavelmente, precisam ser encurtadas. Da mesma forma, as pernas das calças, sempre muito compridas, exigem que se façam novas barras. As cinturas estão sempre carecendo de um aperto ou alargamento. Enfim, as roupas não foram feitas para pessoas de um porte físico mais avantajado.

Para os gordinhos, experimentar novas roupas é uma verdadeira tortura. É um tal de anda pra lá, anda pra cá. É um tal de vestir uma, duas, três camisas; uma , duas, três calças e, no final, ainda ouvir a seguinte repreensão:

“Quem mandou você engordar. Assim não há roupa que lhe sirva!”

Não raras vezes, a gente acaba saindo da loja com a velha roupa do corpo.

Para falar a verdade, eu gosto mesmo é da roupa velha. Velha, limpa, larga e confortável. Sem dúvida, parece haver uma “simbiose” entre nós e o velho vestuário. Pelo uso, ele se acomoda ao nosso corpo. Torna-se uma espécie de pele protetora. Não aperta, não machuca, não arranha, não arrasta as barras pelo chão. Veja-se, por exemplo, os sapatos. Quanto mais usados, mais se acomodam aos nossos pés como luvas.

Gosto mesmo é de uma roupa velha. Ela passa a fazer parte de nosso ser. Ela retém os nossos fluídos, as nossas emanações, a nossa sensibilidade.

Dias atrás, tive de me dispor de um velho agasalho que me protegeu de muitos invernos. Ele começava a desfiar-se e já apresentava alguns rasgões. Não gosto de vestir roupas rasgadas. Velhas sim, rasgadas não! Não sei bem que fim deram ao meu agasalho. Contudo, ao passar as mãos em meu armário, ainda sinto falta daquela peça de lã que me abrigou por vários anos do frio de muitos invernos.

Sou mesmo um saudosista: chego a sentir saudades até de uma velha calça, de uma camiseta, de um calção que foram descartados pelo desuso ou desgaste. Apego-me às coisas boas de tal maneira que sinto falta delas quando são jogadas fora. Por outro lado, sinto-me extremamente desconfortável quando preciso experimentar as coisas novas como, por exemplo, as roupas.

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