Perigo que nunca existiu

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Há muitos anos - mas muitos mesmo - uma moda de viola - Vai de roda - fazia sucesso na voz de Leôncio e Leonel. Lembro-me de alguns versos que minha mãe cantarolava enquanto lavava roupa, costurava para a vizinha, plantava verduras, regava o jardinzinho, limpava a casa...

Não se encoste na parede
Que a parede sorta pó
Se encoste aqui nos meu braços
Que esta noite dorme só.

Lembrei-me da canção, sobretudo da estrofe

Tropeiro só fala em burro,
Carreiro só fala em boi
Moça só fala em namoro
Veio só conta o que foi...

quando os desocupados do salão Scorpiu’s Cabeleireiros conversavam sobre Ronan e Edu.

Ressalto que Ronan e Edu são amigos, unha-e-carne, e amigos meus de longa data. Ambos são corretores e isso explica, em grande parte, o fato de nunca terem caído na malha fina, nem na grossa da Receita Federal. Contribui também para isso a redução drástica do número de incautos aplicadores de capital em imóveis.

Meus amigos são famosos na Praça Barão, no Bar do Pardal, no salão do cabeleireiro Valtinho, no salão do corintiano Dê e do namorador Ismar. Sua fama é tamanha que os amigos, ao invés de se referirem a eles pelos nomes de batismo, geralmente recorrem a alcunhas:

- Lá vem os desmancha-roda.

- Os mala-sem-alça tão chegando. Vambora.

-Aqueles dois não batem na porta de ninguém pra entrar... Entram por baixo da porta.

Tais referências advêm do comportamento de meus amigos. Ele confirma o contido na canção antiga: tropeiro só fala em burro, haja vista que Edu e Ronan não mudam de assunto, só falam do lugar onde se criaram, no município de São Tomás de Aquino, respectivamente na Fazenda do Zé Nicésio e na Fazenda Limeira.

- Ah, naquele tempo tinha fartura. Nem precisava trabalhar...

- Ah, igual os bailes de roça... Ah, nunca mais...

- Vida boa acabou... Agora é essa canga na cacunda...

- Hoje, nem comissão ninguém paga direito...

Edu e Ronan não foram dotados de dons artísticos, por isso, nunca em verso, mas sempre em prosa ordinária, enaltecem a vida de privilégio que viveram nas plagas mineiras e asseguram, com ênfase, que, assim que intermediarem uma grande transação, comprarão, cada qual, um sítio lá nas proximidades do Brejinho. Garantem que irão plantar café, engordar boi, terminar a vida no bem-bom.

Infernizar os próximos com sua cantilena nostálgica não é o bastante, porém.

Quando têm folga nas sextas-feiras (a bem da verdade, eles têm quase todo o tempo livre, inclusive nos demais dias da semana) os dois saem da cidade e vão comer frango com polenta e jogar sinuca, em venda de roça, à beira da Estrada do Titizinho, a meio caminho entre as agruras de Franca e suas venturas de moleque. Geralmente, nessas tardes, fazem-se acompanhar de Vitinho, robusto e famigerado guarda-costas.

Quando entrei no salão dos cabeleireiros, percebi logo a falação.

- O Ronan deve ter acertado no jogo-do-bicho pensei, esfregando as mãos. Agora eu recebo...

Especulei. Frustrado, fiquei a par dos acontecimentos. A venda frequentada pelos dois amigos fora assaltada.

- Roubaram tudo: dinheiro, cerveja, garrafa de pinga, maço de cigarro. Ainda judiaram do Sô Zé e da Dona Lourdes.

Um dos frequentadores do salão quis ser solidário com o Ismar, sobrinho do Ronan. Foi, porém, de infelicidade ímpar:

- Sorte que o Ronan não estava lá na hora, senão tinham levado todo o dinheiro dele.

Todo mundo, inclusive eu, ficou de boca aberta, de olho arregalado. Depois, todo mundo deu gargalhada.

Só podia ser piada.

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