A tristeza grávida

Por: Maria Luiza Salomão

“Eu vi a mulher preparando outra pessoa”

Caetano Veloso
em Força Estranha

A mulher, grávida, é sozinha, mas sozinha orgulhosa, feliz. Nunca na vida mais plena. Grave, grávida. Em solidão que não é solidão, solidão a dois. Há angústia até por estar realizando um desejo, angústia cheia de perguntas: como será o ser que gesto? Como estarei no ser que cresce em mim? Como será o mundo a ser apresentado ao ser se, dele, ainda nada sei? Como será o ser para o mundo se, dele, aprendo cada dia um pouco?

Há perguntas sem resposta, e há respostas não válidas, talvez ingênuas, inadequadas, pequenas. Tudo, em momento grávido, é de grande magnitude e intensidade. A celebração do momento se faz no escuro, no subterrâneo depósito de existências passadas-presentes-futuras dessa mulher que chora ao sorrir, orgulhosa ao transbordar, em cascata de impossibilidades de ser plena ao ser que ela sabe, será eternamente inacabado. Ela sorri triste, ao se saber invólucro ao que virá.

Algo da criatura mostra ao criador que ele é menos do que ela poderá vir a ser. Algo no criador sente ter injusto orgulho de se sentir possuindo a criatura. A criatura será sempre mais, o criador sempre menos. É a lei da divina criação. Essa a tristeza grávida do criador: prontidão para conduzir, prontidão para se excluir, prontidão para abrir espaço ao desconhecido, ao que não controla, ao “alheio de si”, ao estrangeiro.

Mas nada, nada mesmo, pode fazer mais feliz ao criador que saber a criatura, esperar por ela, engravidar dela. Nada pode ser mais sombrio, inseguro, por vezes até aterrorizador, do que sentir, nas entranhas, que algo se movimenta com vontade própria, sentido autônomo, com desejo de vida alheio ao criador, que assiste passivamente austero ao que, de si, sairá à luz e seguirá adiante, em ritmo próprio.

Ao criador a triste alegria. À criatura a alegria triste de se saber só no mundo, gestada por quem lhe foi veículo, ligada às origens infindas no então do criador, e projetada em destinos infindos.

Ao criador cabe o saber vazio da criatura, e a incerteza de voltar a ser habitado por novas criaturas.

O artista não sabe, finda a obra, se permanece artista. Daí o resquício de um perene adeus. Daí a tristeza por companheira. E a ânsia contínua, a espera solitária, prenhe de promessas, em estado interessante, que guarda a fabulosa alegria. Nós, humanos, estamos permanentemente grávidos: a Criança é grávida do Adolescente, que tem o Adulto pronto a nascer. O Adulto vai parir, um dia, o Velho e no núcleo indivisível do Ancião ser repousa a morte. Anciãos, tataranetos da criança, podemos sentir saudade imensa do “nunca mais”, a tristeza de ter que ir em frente, em desprender contínuo. Vida gerando morte, morte gerando vida.

Viver demanda arte e o estado natural da arte de viver é a tristeza grávida do que não é triste. No caminhar, as cascas douradas da Criança, do Adolescente, do Adulto, do Velho, do Ancião e, livremente, prosseguir, em estado de tristeza grávida, sem pausa nem pouso certo.

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