PrimaVera

Por: Eny Miranda

Nossa casa era pequena e simples, mas se abria a universos inimagináveis (e não é a primeira vez que digo isso). O jardim e o quintal eram lentes voltadas para o mundo infinito. A rua, ladeada por vastas copas de amendoeiras, nos prometia infinito o mundo. Juntos, meu irmão e eu ali crescíamos.

Escrevíamos e líamos, nos livros, nas águas, na terra e nas nuvens, histórias azuis, verdes, cor-de-rosa... talvez numa compensação prévia dos tons nimbosos que, mais tarde, esmaecendo a beleza de muitos arco-íris, desfilariam sob nossos olhos adultos. Àquela época, entretanto, não pensávamos nisso. Críamos que, durante o dia, anjos guardavam águas, nuvens, terras e vida de todas as crianças, e, à noite, velavam o seu sono.

Pois bem, tínhamos uma prima da minha idade que também cria nos anjos e, provavelmente, lia nos livros, nas águas e nas nuvens histórias azuis, verdes, cor-de-rosa... Contudo, morava num terceiro andar de prédio, em rua movimentada; longe de chão batido, patos e galinhas; longe de mangueiras carregadas de frutos e balanços que enfeitassem olhos e alimentassem fantasias; de goiabeiras que servissem de trampolim para mil aventurosos mundos aos confiantes mãos e pés malabaristas; longe de laranjeiras abotoadas que perfumassem noites e sonhos e adoçassem manhãs... E não tinha irmãos.

De vez em quando, essa prima ia passar uns dias conosco. Sabia de nossas brincadeiras divertidas, e nós sabíamos de sua inexperiência nelas, o que as tornava, a nosso ver, ainda mais divertidas. Sabíamos, por exemplo, que sentia inexplicável medo de gatos, cachorros, pintinhos, passarinhos - e outros seres peludos e emplumados, comuns em nosso dia-a-dia.

É mais do que certo que ansiávamos por sua vinda. Nós e a Prima -extremidades distintas de uma mesma raiz de frondosa árvore, unidas na seiva e entrelaçadas nas fibras por força do tronco original comum; partes de um mesmo fio genético, separadas por vivências e hábitos e aproximadas pela força do amor e do sangue - percebíamos, de algum modo, poderosos laços nos estreitando; ouvíamos, por algum canal inescrutável, ecos da ancestral semente se abrindo para a vida, na geração da grande árvore - fonte, síntese e símbolo de nossa existência. Nós e a Prima nos amávamos. Mas amor de criança não exclui certas traquinagens com o ser amado...

Assim, meu irmão teve mais uma de suas muitas ideias.

(A Onça Coscota, que nos fascinava e aterrorizava - a mim e à Prima -, era apenas um ser fictício, um dos muitos personagens criados por meu irmão, com quem brincávamos animadamente. Mas o Príncipe, não. Substantivo concreto, simples e pulsante; um fox terrier festivo, inquieto, vivíssimo: pelo baixo, toquinho de cauda eternamente em movimento, pernas ágeis, patas macias, dentinhos afiados, muita disposição para brincar e, como todo filhote, atração incontrolável por crianças e calcanhares em movimento, assim era o nosso cãozinho. Incapaz de morder, no sentido doloroso e cruento que o vocábulo encarna, era, no entanto, capaz de abocanhar, com alegria e pureza, sem distinção de espécie alguma, bolas, chinelos, mãos, pés e, sobretudo, róseos, arredondados e cinéticos calcanhares).

Assim, meu irmão convidou a Prima para experimentar o balanço da mangueira grande; provar as delícias do deixar-se lançar no espaço, ao frescor da sombra e ao sabor do vento, em movimentos contínuos de idas e vindas...

- Vocês têm certeza de que “ele” está bem preso?

Entre latidos alegres e gritos histéricos poucos segundos transcorreram.

E assim, meu irmão e eu ganhamos um dia inteiro sem quintal e sem brincadeiras.

Só recuperamos a liberdade, um pouco antes do prometido, por intercessão da Prima que, curiosíssima, não suportava mais esperar para ver de perto as nervuras nas folhas das árvores distantes, delicado trabalho em sutache vivo; a imagem de São Jorge com o dragão, desenhada em misteriosas sombras e luzes, na face da Lua; as pedras brilhantes da ilha do farol, e o farol, tesouros no meio do mar... através da luneta fabricada por meu irmão, que nos emprestava asas aos olhos.

Havia, entretanto, uma condição para essa nossa prematura liberdade: que prendêssemos muito bem tudo o que fosse vivo e coberto de pelos ou penas.

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