Eu, meu neto e a lua

Por: Everton de Paula

194425

Anoitecia. Fazia um calor dos infernos. Encontrava-me em casa, no meu escritório, cumprindo a difícil arte da autopunição: trazer parte do trabalho acadêmico para o lar. Tabelas e figuras complexas, textos por revisar, referências bibliográficas por concluir, teses merecendo confirmação... Um calor que vencia com folga a tentativa inútil das pás do ventilador em querer produzir um débil frescor. Notícias por ler, uma pilha de contas domésticas, um zumbido irritante de vampiresco pernilongo insone.

Por todos os lados vinham os sons da noite iniciante: grilos, a vizinha diante da pia após o jantar cantarolando piu dolce a melancólica Ai Mari... O sino da igreja próxima chamando os fiéis para a última missa do dia, os gritos estridentes da meninada brincando na rua, as vozes de alguns queridos mais velhos na sala lamentando a adiantada e incompreensível tecnologia das tevês e aparelhos eletrônicos (lógico, uma conversa cheia de parênteses, tosses e parentes)...

A crônica para o jornal, a tentativa de trabalhar melhor uma frase de um querido e distante amigo: “Quando penso na vida e sinto que o principal já foi feito, só resta esperar...” que me fazia pensar sobre a extrema fragilidade da condição humana...

As pás do ventilador competindo em morosidade sugestiva com o ponteiro dos segundos no relógio da parede. Tempo que não passa nos momentos de angústia, mas que voa nos breves instantes de ternura, alegria, prazeres diminutivos...

Um gritinho de criança quebra o cenário e faz este avô abobalhado afastar a cadeira, levantar-se e se dirigir à sala. Meu neto acabara de chegar. Estava no colo da mãe, minha filha. Estendeu-me os bracinhos querendo o meu colo. Em segundos, eu o acariciava e brincava de conversar numa língua estranha, mas tão reciprocamente compreensível entre avô e o netinho de um ano... Risadinhas de prata...

Fazia muito calor.

No colo, levei-o à calçada em frente a casa. Vi aquele craniozinho amado movimentando-se em todas as direções à busca das luzes que a cidade ensaiava acender.

Noite clara e abrasadora. Súbito, meu neto ergue seu olhar para cima, ao céu, e fixa-se na lua cheia. Levanta o bracinho, abre a mãozinha e exclama algo parecido a “Ingá!” Talvez quisesse dizer: “Veja, vovô, como é bela a lua no céu!”

Repeti o seu gesto, declinei sua expressão e ficamos, avô e neto, hipnotizados pela lua redondíssima e gorda, pródiga de luz e encantamento.

Súbito, o mundo parou. Naquele instante, naquele cenário, naquele exíguo espaço na calçada, só havia três elementos vivos e intensos: eu, meu neto e a lua. Por instantes, tudo desaparecera dissertações, contas do lar, trabalhos acadêmicos, preocupações, a depressão por conta do passado, a angústia frente ao futuro, a emblemática espera de meu amigo... Não, nada, absolutamente nada disso tinha lugar naquele espaço de luz só eu, meu neto e a lua, numa espécie impossível de tríplice simbiose de ternos sentimentos: o amor do avô, o encantamento do neto, a beleza ímpar da lua gerando um só elemento - doce ternura.

“Ingá”, expressou-se mais uma vez o meu netinho. Depois, seus bracinhos gorduchos se enlaçaram em torno de meu pescoço. Ele deitou mansamente sua cabeça em meu ombro... Aos poucos, o instante mágico foi se diluindo, desfazendo-se em pedaços e dando lugar aos pensamentos rotineiros. Enquanto eu pensava com pesar nos meus amados que hoje dormem para sempre, meu corpo se curvava. Mas meu netinho balbuciou bem pertinho de meu ouvido, agora sem olhar para a lua: “Ingá!” Foi o suficiente para reerguer-me e cientificar-me de que começava a nascer de uma parte de mim uma nova geração. Vida, vida! Ela continua, apesar das dores, da espera de meu amigo, das perdas e das fugazes alegrias. Vida, vida nova, como nova haveria de se tornar aquela belíssima lua cheia.

Abracei meu neto com o melhor dos meus sentimentos, dirigi uma vez mais meu olhar à lua boiando no céu, entramos.

A avó pegou o netinho. Massageei meu braço adormecido. Voltei ao escritório e à rotina do trabalho extenso e duro. Pás, ponteiros, papéis, pernilongos... Fazia um calor desgraçado, mas minha alma estava leve, plena de luar e de pequenos “ingás” revigorantes.

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