O médico e a suas cordas vocais

Por: Nathan Oliveira

Um ouvido meio surdo, outro ouvindo muito bem
Dr. Joseph B. H. Thompson fazia mais um curativo nos lábios daquele soldado
No meio daquela densa e suja guerra
Onde dormir era o mesmo que se manter acordado

O medo era algo que já não conhecia direito
Apesar de sempre ter receio de ser morto e não poder avisar sua família
Algo que seria tão frio e sem coração
Como o fato de ser o líder e deixar a matilha

Entre um curativo e outro, lembrava-se dos ralados no joelho
De seu filho mais velho, que hoje fazia 18 anos
Se sentia um completo perdido ao pensar
Que daquele momento não podia partilhar

Mas havia algo de diferente naquele humano
Algo que chamaria mais a atenção se o mesmo não estivesse onde estava
Era o jeito que ele tratava seus mutilados e decepados pacientes
Que não paravam de chegar da batalha

O que ele fazia, realmente, era algo incomum
Algo que seria julgado como insano, até mesmo de mal gosto
Mas que o fazia ser tão único
Que o chamavam de ‘arcanjo’, mesmo que no meio daquela guerra em Agosto

Sem mais mistérios, lhe digo: o médico cantava
Sim, simples assim, nada mais e nada menos
Enquanto fazia os curativos, entoava canções bem baixinho
Como se estivesse reconstituindo e exterminando toda a dor daquele enfermo

A sua voz era suave e aveludada
Que era uma coisa que não se ouvia por ali há anos
As notas saiam de suas cordas vocais em perfeita harmonia
Como se anjos tocassem os corpos baleados por todos os lados

Às vezes, fechava os olhos e respirava fundo
O cheiro daquela fumaça e petróleo insistiam em dominá-lo
Mas nada disso era suficiente para detê-lo em sua melodia
Enquanto todas aquelas feridas abertas ardiam

O sangue jorrava ao seu lado direito, de uma artéria
O sangue jorrava ao seu lado esquerdo de uma garganta
Mas acredito que foi daí que surgiu aquela velha até então e desconhecida frase:
‘Quem canta, seus males (e os dos outros) alivia, seus cortes cicatriza, a dor espanta.’

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