Recanto de Maria

Por: Silvana Bombicino Damian

Mudaram a posição de sua cama e agora, deitada ali ela podia ver toda movimentação do refeitório. Sabia que outro Natal chegava, só não sabia quantos já passara naquele lugar. Sua memória pregava-lhe peças, era tudo muito confuso; sonhos e lembranças já pertenciam ao mesmo lugar. Mas ainda restava nela um bocado de vontade e rebeldia e quando chegava alguma visita que lhe desagradava conseguia se retirar do local, embora seu velho corpo continuasse ali inerte. Quase não saía da cama e a decadência física era atenuada por um mal de Alzheimer recentemente diagnosticado e em estágio inicial.

Em seu campo de visão, uma imensa árvore de Natal ia sendo decorada com bolas coloridas e luzes. O alarido das mulheres às voltas com o lanche da tarde e preparação da decoração invadiu sua mente de uma paz intensa, quase anestésica. Adormeceu. No fogão à lenha um tacho de cobre exalava um inconfundível cheiro de leite adocicado, enquanto tia Joaninha, com seus braços gordos, mexia o doce com colher de pau e grande esforço. Sua mãe entrou na cozinha com o frango já morto e depenado nas mãos, limpando o suor do rosto e se apressando em começar a preparar a ceia. Branco, o velho cachorro soltou seu inconfundível uivo no terreiro, provavelmente reclamando de Paulinho, seu irmão caçula que nunca dava tréguas ao coitado do cão. Na sala grande e um pouco escura, um pinheiro natural plantado num grande vaso pintado de vermelho, trazia em seus galhos alguns enfeites e bolas de vidro coloridas. Maria! Maria! Abriu os olhos e a enfermeira, com um copo de água nas mãos, lhe estendeu o medicamento.

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