O poder das histórias

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

A mais jovem de uma família numerosa, Sofia tinha uma vida comum como as moças de seu tempo, numa cidade de interior, início do sec. XXI, em um país como o Brasil. Estudava, trabalhava e saía, nos fins de semana, para se divertir, pois queria ser feliz. No entanto, encontrava apenas distração passageira e não a felicidade intensa que sua alma desejava. Aprofundou-se nos estudos, leu muito e, em sua imaginação, criou uma história diferente para sua vida, na qual era a personagem principal, fazendo par com um lindo jovem, educado, sensível que a amava ardentemente. O amor deles renascia a cada dia, a cada hora. Neste seu mundo onírico, particular, sentia-se rodeada por uma barreira invisível que a separava do espaço exterior e a impedia de ver sua verdadeira vida, sentir seus dissabores, sofrer os danos que a sociedade causava a ela e aos outros. E, assim, Sofia tinha uma vida real, sem objetivo, sem interesse ou emoção. Na outra, imaginária, refugiava-se e libertava-se. Acrescentava detalhes à sua história, criava fatos, situações, registrava ideias, revelava sentimentos. A elaboração de uma trama paralela tirava-a da rotina, enchia-a de esperança, inovava sua vida. Livrava-a do tédio e de definhar aos poucos...

A história de Sofia baseava-se no amor, sustentado pela amizade, que o solidifica e o mantém vivo por muito tempo. E como é o amor o grande elo entre os humanos, a história fez muito sucesso. Depois de vivenciá-la em sua mente, por muito tempo, escreveu-a e enviou a uma editora que logo a publicou. Comentada nos principais meios de comunicação, foi lida por milhares de pessoas e apreciada por jovens e adultos. Sofia concedia entrevistas, fazia palestras onde falava sobre o poder das histórias em iluminar vidas humanas.

Ela acreditou que poderia ser feliz, e isso fez diferença em sua vida, pois conseguira. Ainda não encontrara aquele amor sonhado, mas não desistira de sonhar. Como ela reconhecia a imperfeição do ser humano, usava a escrita para atenuar esta condição, no esforço de passar às pessoas emoções que as auxiliassem a viver melhor.

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