O casaco vermelho

Por: Maria Luiza Salomão

Resisti o mais que pude ao frio, em terras germânicas, até os 5 graus negativos em Kassel, e neve, em Frankfurt. Conheci outro tipo de neve (que não a de flocos), que me parecia feita de pequenos granizos, bolinhas de gelo que molhavam as folhas, o chão, sem aguaças. Um vento cortante, sensação térmica de estar em um freezer. Tudo o que você necessita, em estando assim, se resume em gorro, luvas, meias, sapatos secos, chocolate quente, vinho, quartinho quente. Enquanto isso o meu espírito, rebelde, deseja se aventurar. O frio na Alma vem de outra fonte climática.

Era necessário um casaco forte e quente, e isso me contrariou, já que ele iria repousar no meu guarda-roupa 11 meses ao ano, até que se fizesse necessário. Não é sábio investir em algo que não vamos usar. Minha Alma protesta contra o casaco, ela me demanda expandir a capacidade de espanto, escandir aprendizados, refinar a degustação da vida. Alma que ferve de curiosidade pelo mundo vai se interessar por um reles casaco?

Estava eu às voltas com a Necessidade, não com o Desejo. Mas, em qualquer circunstância, a beleza é fundamental. Porém, era preciso que o casaco fosse de boa qualidade. Contudo, no vestuário feminino, se o casaco possuísse todas essas qualidades, seria tipo “um achado”. Todavia, o casaco pode ser bonito e não ser de boa qualidade. Entretanto, pior ainda, ele pode ser caro (ameaçaria os não menos caros anseios da Alma).

Lia, hoje, a Veja atrasada (adoro ler revista velha, o acontecimento amadurece, a gente depura os palpites, os “nove fora” do sensacionalismo). Em San Francisco, EUA, “todo mundo nu”, nas ruas, de bicicleta, nos ônibus, restaurantes. Nus, no calor. A tecnologia, para proteger o corpo do frio, é fundamental acima da linha do Equador. Em roupas brasileiras, sem forros, de tecidos que estranham neve, comecei a sensual paquera pelo casaco: preto de novo? Branco não, fica com manchas amareladas. Roxo?!? Amarelão?!? Quanto custa?!? (câmbio).

O casaco vermelho me surgiu feito sol poente japonês. Ele tem uma gola-de-esquentar-ouvidos, charmosa, que embute os cabelos, tipo corola em volta da cabeça, quase capuz. Dobro o tecido docilmente, e crio novas golas (fico feliz, muitos casacos em um só). Ele ostenta um lindo botão! Às vezes me desfaço de uma roupa e não dos botões (são minhas “pedras preciosas”). Casaco bom-bonito-barato, menos da metade do preço cá no Brasil. O vermelho combinou com as paisagens alemãs, de fim de outono.

Alma e Corpo dialogaram: qual a ponte que leva a Necessidade ao Desejo? Como não confundir uma com o outro? Como desejar aquilo de que se precisa? Como precisar o Desejo de forma a atender à Necessidade básica? O casaco vermelho, hoje, no fundo do guarda-roupa, desnecessário circunstancialmente, com seus “mas, porém, contudo, todavia, entretanto” atiçam em sua dona, sibilando na sua cor forte de Paixão, o sábio Desejo justificado de novamente viajar...

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