A força da leveza

Por: Eny Miranda

Como o cronista Antônio Maria,
ele poderia ter dito:
“Eu amei tanto a vida que não posso acreditar que tenha morrido.”


A Arte nasce da interseção entre corpo e alma. Em Oscar Niemeyer isso não é diferente. Naquele espaço infinitesimal e infinito, onde densidade e leveza, matéria e eternidade se tocam, apoia-se a obra deste mestre do modernismo arquitetônico. Ergue-se ali, curvilínea, desconcertantemente bela, equilibrando-se no ar, e com ele comungando; confundindoa gravidade de olhares angulosos, cartesianos, inflexíveis como a linha reta; penetrando o azul (que também pode ser líquido), recortando o verde... e pelo verde e o azul sendo penetrada e recortada, continuamente transfundida, em estado de perfeita simbiose. Assim Niemeyer sempre quis a sua criação artística: em harmonioso convívio com a natureza.

De cimento, pedras e aço fez plumas, nos monumentos que parecem levitar, ou naqueles audaciosamente inclinados sobre finas hastes, que se põem a desafiar a congruência física. Do concreto, em todas as suas acepções, erigiu o abstrato. E descreveu, na arte da palavra, sua paixão pela arte da forma:

“Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein”.

Para os franceses “o arquiteto da sensualidade”, Niemeyer era, na verdade, o arquiteto da comunhão entre duas artes: a humana e a divina.

Na construção do prédio do MEC (Ministério da Educação e Cultura), hoje Palácio Gustavo Capanema, no centro do Rio de Janeiro, um dos primeiros exemplares da arquitetura moderna do Brasil, Niemeyer tomou contato com aquele que, a partir de então, influenciaria a sua obra: o arquiteto franco-suíço Le Corbusier. Projetado por uma equipe de peso, entre eles o carioca Oscar Niemeyer, o bloco principal do prédio ergue-se sobre pilotis, deixando sob sua estrutura um vão de cerca de dez metros de altura, para que nenhum obstáculo se interponha entre o olhar e a paisagem, entre os passantes e os jardins ali plantados; permitindo que a natureza circule livremente por e com ele, permeando e redesenhando seu espaço. A vedação, feita por cortinas de vidro, abre sua intimidade à luz. É um quarteirão inteiro, uma praça pública, um jardim atravessando o edifício.

Sobre a matriz da funcionalidade corbuseana, musa e sêmen, Niemeyer imprimiria a sua marca, esculpiria a elegância, a beleza e a arte de sua arquitetura, sempre perfeitamente integrada à paisagem circunjacente, como a vítrea “nave-mãe”, flor aberta sobre seu caule, brotada na extremidade de um promontório rochoso que se projeta nas águas da Baía de Guanabara: o Museu de Arte Contemporânea de Niterói. Desde as retilíneas colunas do Palácio Gustavo Capanema, onde fez nascerem asas, ao criar o Palácio da Alvorada, em Brasília, Niemeyer foi deixando em sua obra o perfil indelével da genialidade, cujo clímax é atingido quando, da onírica aeronave que Lúcio Costa fez pousar no Planalto Central do Brasil, fez alçarem voo seus monumentos de concreto.

Em contínua gestação de formas, Oscar Niemeyer assinou cerca de 600 obras, verdadeira fortuna de linhas curvas, livres e sensuais, em perene estado de beleza, já que, para ele, a beleza é a função da forma.

Sobre sua obra, poetiza o jornalista Leonel Kaz:

“A arquitetura é o lugar para deixar a nuvem entrar, [...], como no prédio do Ministério da Educação. A arquitetura é o lugar para o mar mergulhar na gente

como das janelas do Museu de Arte Contemporânea de Niterói. Oscar sabia disto, que o homem não pode viver isolado de outros homens e muito menos de tudo quanto compõe seu habitat natural [...]. A beleza dos traços do arquiteto era leve porque não eram os traços do homem, mas das curvas sinuosas de pedras, ondas do mar, pássaros e lagartos. Ele se apropriou, como homem, do que não era humano exatamente para nos tornar mais humanos”.

Diferentemente das telas de Monet que reconstroem, ao seu pincel e à sua paleta, a catedral de Rouen em vários horários do dia, a obra de Niemeyer reconstrói-se a si mesma, a cada instante, ao pincel e à paleta do sol, do mar, do céu, do planaldo... O que me faz lembrar uma antiga crônica de Afrânio Coutinho que dizia: “Guimarães Rosa costumava contar que, ao tempo de seu mandato de cônsul em Milão, sempre que podia descia a Florença e permanecia horas na pequena capela dos Medici, a Capella Nuova. Dizia ele que, conforme a hora do dia, a luz que penetrava pelos vitrais criava efeitos diferentes e ele ficava longo tempo apreciando, em todos os seus detalhes, a obra-prima de Miguel-Angelo, dessas que provocam emoções até às lágrimas, com as suas fabulosas alegorias do Dia e da Noite. Aurora e Crepúsculo”.

Ele faria cento e cinco anos hoje, Dia Nacional do Arquiteto e Urbanista, criado em dezembro de 2011, em homenagem ao Arquiteto Oscar Ribeiro de Almeida de Niemeyer Soares, mas preferiu completar eternidade, a cada dia do ano, per saecula saeculorum.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras