Advogado

Por: José Borges da Silva

Bom aluno desde a escola primária, o jovem ingressou na faculdade de Direito de uma das mais bem conceituadas universidades públicas do país na primeira tentativa. Passou entre os primeiros colocados no concorrido exame vestibular. E, contrariando expectativas familiares, desde os primeiros dias de aula já enveredou para um grupo de estudos avançados, cujos debates logo mostraram a tendência revolucionária dos seus integrantes. Passados alguns meses já se sentia um militante, um verdadeiro guerrilheiro das idéias a lutar contra as desigualdades sociais impostas por um poder econômico opulento que passou a ver no meio em que vivia. Especializou-se em desvendar armadilhas do sistema, que via dissimuladas em valores que considerava artificiais, suportes de um regime sub-reptício e espúrio, segundo propalava abertamente. Sempre fora recatado no comportamento e no trajo, mas após as primeiras reuniões já causou embaraço à direção do estabelecimento ao comparecer às aulas ora trajando bermuda e chinelos feitos de tiras de lona e lascas de pneus, ora uma farda militar, coturnos e boina. Essa mudança rápida no modo de ver a vida só tinha uma explicação para a mãe, filha de um tradicional empresário da cidade: herdara o gérmen esquerdista do pai, que também fora militante na juventude. Este último confessava suas aventuras juvenis apenas reservadamente, em que admitia haver participado da resistência ao regime militar que governou o país entre os anos 1960 e o inícios dos anos 1980. Mas, o rapaz jamais externara qualquer tendência, até porque o pai raramente tratava das próprias aventuras, após assumir importante cargo público na área jurídica ainda nos anos 1980. Porém o jovem, como que desabrochando em sua personalidade, se mostrava cada vez mais determinado. Gritava palavras de ordem até contra professores, bastando que ouvisse elogios ou justificativas de um ato que fosse de qualquer governo. Esse comportamento durou até meados do terceiro ano do curso, quando percebeu que os colegas mais engajados começavam a perder terreno em relação ao resto da turma. Desde então ia às aulas com trajos mais discretos. Ao se formar já admitia o terno para ocasiões especiais. E admitia dialogar, embora em toda conversa fizesse questão de enfatizar que não transigia em matéria de princípios, e que andava refletindo sobre um modelo de estado mais justo. Depois de formado, diferentemente do pai, que buscou carreira estatal, decidiu que não contribuiria com o regime que considerava fonte de todas as injustiças sociais. Iria advogar. Mas, mesmo para exercer a nobre profissão estabeleceu princípios rígidos: só cobraria honorários se vencesse a causa. Afinal, entendia não ser justo cobrar por causa malsucedida. Como já tolerava dialogar sobre suas idéias, logo que externou seus parâmetros remuneratórios foi aconselhado por colegas mais experientes que, rogando cerimoniosas vênias, observaram que no seu propósito de lisura havia algum exagero. Para o pai, aquilo era pura ingenuidade. Mas o jovem, também pedindo vênias, obtemperou que a questão era de princípios, e que sobre isso já externara sua posição. Mas, ainda assim um decano da comarca não se deu por vencido e tentou lhe explicar que a advocacia, tal qual a medicina, é atividade meio, em que o profissional se propõe a realizar um trabalho da melhor maneira possível, mas sem garantir o resultado. Mas o jovem, que já fechara questão, sequer ouviu o último arrazoado. E em poucos meses já advogava para todos os malandros da praça. E ganhou fama imediata, por sua coragem em assumir causas temerárias. Um ano depois e ainda não havia recebido um centavo sequer. Na verdade, não ganhara um centavo, e metade da cidade começava a odiá-lo, devido ao seu empenho no patrocínio de causas cujo objetivo era exclusivamente ganhar tempo, protelar pagamentos, postergar o cumprimento de obrigações assumidas...

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras