Oitocentos e sete dias

Por: Sônia Machiavelli

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Antes de entrar na pele de seus personagens para os erguer em texto, todo grande ficcionista movido pelo sentimento da compaixão, decisivo para definir a sua arte, sente na pele as singularidades do Outro. Uma delas, a angústia de existir “porque o problema mesmo é o oco, vazio, fossa, abismo, intervalo, essa coisa nenhuma, gulosa, assim, que não se preenche jamais”, como lemos no conto Morrer de Amor. Ele pertence ao conjunto dos que constituem o livro Oitocentos e Sete Dias, lançado ontem em Franca por Vanessa Maranha, saudada na apresentação pelo premiado Menalthon Braff como “autora que chegou de repente para assumir um lugar de destaque entre os escritores brasileiros.”

Pele, no dicionário definida como maior órgão do corpo humano, descrito em sua função protetora, termo-reguladora, captadora de estímulos dolorosos e táteis, é conceito importante no processo de criação da escritora e palavra de peso no léxico muito rico com que estrutura as histórias extraordinárias deste terceiro livro. Nele o substantivo assume valor de índice da passagem do tempo, de revelação de estados de espírito, de transformação implacável, do mistério com o qual tantas vezes nos defrontamos ao longo da existência. Também sugere máscara, aquela que encobre, disfarça, dissimula e confunde.

Surpreendendo na primeira parte do livro com o surrealismo, nova marca em sua linha de evolução na escrita, Vanessa Maranha nos apresenta personagens inicialmente descritos pela pele que os distingue: a moça “verrugosa como uma vaca doente” em Castiços; o capitão de “face assustadoramente azulada” em O cordovês armênio; a “porca zeófaga leitosa, pelagem lustrosa (...) em A mulher que virou chama; o demônio cujas peles cheiram mal no espetacular Ludmila, de grande plasticidade.

Também no viés realista, e no pós-moderno, não raro roçando metáforas, insinuam-se “ as peles mutantes de Helenas ambivalentes”, em Miríade; “ a gente branca “ e “ a gente castanha” de No vão dos dias; “a pele pálida de leves sardas sarapintando o nariz” em Chantal; “uma textura diferente de pele, mais judiada, dilatada, ela toda ressequida “, em Paralelos; a “carne amarelada, esverdeada (...) textura de borracha, cera”, em A Gargalhada. E mais: “o rabudo sete-peles” e o professor “pálido como uma tarde de inverno” de Clausura; o marido que tinha “a pele sempre gelada”, em Staccato; o homem que deseja comer a mulher do amigo e “vestir-se de sua pele” em Voltar; “mulheres envelhecendo sob sua maquilagem discretamente rachada” em Peter e Claire; “a pele como borracha esticada revestindo vida opaca, encharcada de anfetaminas, cocaína, uísque, no inquietante pelo jade daquele mar parati”. E há “um homem sem cor” em Oitocentos e Sete Dias, título do conto que nomeia o livro e tem substrato na realidade francana, pois inclui fato pitoresco, senão bizarro, registrado há pouco tempo na cidade, pinçado com extrema pertinência e perspicácia para o corpo da história.

As peles são muitas. E todas têm camadas. É de fora para dentro, da epiderme para a hipoderme, passando rascante pela derme, que se movimenta a ficcionista, quer pela primeira, quer pela terceira pessoa de um discurso que em sua grande parte se tinge de cores psicanalíticas. Rompe tecidos enervados sem receio da dor, mergulha fundo para exibir subterrâneos povoados de medo, solidão, orfandade, exclusão, inveja, raiva, amor em suas manifestações tão variadas, incomensurável dificuldade de comunicação, ausência de intimidade, e, claro, “os dois apetites humanos essenciais”. É rasgando a pele que a ficcionista parece nos provocar pela voz de uma das irmãs de Eva, nome recorrente na sua obra: “Viram como o verniz e a máscara caem fáceis e o que corre camuflado por dentro se revela por inteiro?” Algumas dessas passagens me remeteram ao filme A Hora do Lobo, de Ingmar Bergman: no meio de uma festa, velha senhora pede licença a um homem e arranca do rosto a pele que se descola como se fosse de borracha.

“Escrever não é senão o que se põe no mais próximo do nevrálgico. No sistólico”, lemos logo no início de Oitocentos e Sete Dias. É frase que traduz precisamente o mover-se de Vanessa Maranha pela escrita visceral, de dentro, dos pulsares da vida que ao longo do tempo vão inevitavelmente conferindo aos seres novas feições.


FICCIONISTA EM ASCENSÃO

Vanessa Maranha

Vanessa Maranha nasceu em São Caetano do Sul em 1972. Tem portanto 40 anos. De família francana, veio para a cidade ainda pequena, e aqui cursou o ensino primário, ginasial e colegial no Educandário Pestalozzi. Em seguida fez Psicologia na Unifran, terminando o curso em 1996. Três anos depois concluiu Pós-Graduação na PUC. No ano seguinte começou a exercer psicologia clínica, trabalhando ainda como professora de inglês e francês. Também data deste período sua função como repórter no jornal Comércio da Franca, onde atuou por quatro anos, como editora do caderno Artes e titular da coluna Insight. É colaboradora deste Nossas Letras. Casada com José Antônio Coelho, tem a filha Nina.

Vanessa vem se sobressaindo na literatura desde 1995, quando publicou Coisas da Vida . Em 1999 classificou em segundo lugar um conto escrito em espanhol no concurso Locos de Atar. No ano seguinte, com texto em francês, foi finalista no Prêmio Guimarães Rosa, da Radio France Internacionale. Em 2003 publicou Cadernos Vermelhos e teve um texto escolhido para compor a coletânea de contos da Universidade Federal de São João Del Rei. Logo depois três de seus contos foram incluídos no livro “30 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira”, organizado por Luiz Ruffato e publicado pela editora Record. Klaus recebeu o Prêmio Sesc de Contos Machado de Assis em 2010; Miríade foi premiado no Primeiro Concurso de Contos da Universidade Federal de São João Del Rei, no ano seguinte; pelo jade daquele mar parati obteve o primeiro lugar no Off Flip de Literatura 2012. Os três fazem parte, com outros vinte e um, de Oitocentos e Sete Dias, lançado ontem e resenhado ao lado.

Serviço
Título: Oitocentos e Sete Dias
Autora: Vanessa Maranha
Editora: Multifoco
Revisão: Joelma Ospedal
Capa e Diagramação: Guilherme Peres
Onde comprar: Livraria Pé da Letra.

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