Sonho abalado

Por: Chiachiri Filho

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Houve um tempo em que eu acreditava em Papai Noel. Nas manhãs dos dias 25 de dezembro, logo ao acordar, corria a mão por debaixo da cama em busca de algum pacote. Encontrava-o sempre, com impaciência o abria e ficava fascinado com os brinquedos. Por vários anos segui esse ritual e, nos inúmeros pacotes que abri, encontrei os presentes sonhados e desejados. Sim, eu acreditava no bom velhinho de barbas brancas e roupa vermelha que corria o céu com seu trenó encantado, distribuindo presentes para as crianças comportadas.

Conhecia o Papai Noel através de figuras e ficava fascinado com as histórias que os adultos contavam sobre ele. Certa feita, meu pai perguntou-me:

- Você quer ver o Papai Noel?

Meus olhos brilharam e respondi

- Quero, quero sim. Aonde ele vai estar?

- Na Casa Betarelo , disse meu pai.

A Casa Betarelo ( onde tudo era bom, barato e belo ) era o paraíso da meninada. Lá havia os melhores e mais cobiçados brinquedos da época. Encontrar o Papai Noel num lugar como aquele, seria uma tentação.

Fomos. O Papai Noel estava na porta da loja distribuindo balas e sorrisos. Ao defrontar-me com ele, ao ouvir a sua voz, ao ver os seus gestos, percebi que ele não me era estranho. Quando ele pegou carinhosamente em minha bochecha e falou “ Feliz Natal, moreninho” eu não tive dúvidas e perguntei ao meu pai:

- Eu estou achando que esse Papai Noel é o pai do meu amigo Paulo Sérgio.

De fato, o bom velhinho nada mais era do que o Guido Betarelo. O gorro, a barba, a roupa vermelha não conseguiam disfarçar a personalidade marcante do Seu Guido. Daí para frente, minha crença no Papai Noel ficou seriamente abalada.

Salvo engano, o Dr. Guido Betarelo foi o primeiro Papai Noel de Franca ( pelo menos para mim ). Segundo contam, não foi fácil para ele caracterizar-se como Papai Noel. Teve, inclusive, de enfrentar a pressão da Igreja Católica que, através do Vigário da época, ameaçou-o de excomunhão. Para o religioso, a figura do Papai Noel poderia empanar a do Menino Jesus. Não há dúvida de que a preocupação do Vigário tinha a sua razão de ser. Em nossos dias, as festividades natalinas giram em torno do Papai Noel. Porém, Guido Betarelo não teve nada com isso. Ele simplesmente quis alegrar a sua loja e os seus fregueses. Conseguiu o seu intento. Contudo, conseguiu também com que a minha crença no Papai Noel começasse a se desfazer.

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