Venderam a manjedoura

Por: Luiz Cruz de Oliveira

O sol judia pouco, embora abundem indícios de que o verão se aproxima a galope. A brisa suave ajuda a amenizar a temperatura. Ela sopra na copa das árvores lá do ponto de táxi umbrelas a protegerem os veículos.

Um homem velho está sentado no banco da Praça Nossa Senhora da Conceição e seu corpo projeta sombra em direção ao poente. As pessoas que passam apressadas ignoram sua presença, ignoram sombras e amanheceres. Se ao menos curiosidade as movesse, perceberiam os olhos do ancião voltados para o alto, perscrutando o céu.

De repente, ocorre sobressalto, como se as palavras cutucassem corpo adormecido.

- Hein? O quê?

A reiteração faz compreensíveis as palavras, o velho se acalma.

-Bom dia, Sô Chico. Posso me sentar?

-Como? Ah, sim, pode, pode sim. Bom dia para o senhor também.

Ao lado do velho está um homem negro, alto e forte. Sua cabeça, repleta de fios brancos, denuncia um octogenário. Ele também se senta e abre sorriso largo, expondo parte da dentição perfeita.

- Não está me conhecendo, hein Sô Chico?

- Desculpe, não estou. A minha vista já não é a mesma, desculpe. Qual é a sua graça?

- Sou o Assumpção, Carlos Assumpção.

- Nossa... É o poeta! Desculpe, eu devia ter reconhecido a sua voz... O maior declamador que existe... Mil perdões, Carlos.

- Ora, deixa disso. O senhor estava distraído, olhando pro céu.

- Não, não. Estava olhando a árvore de Natal... queria calcular a altura.

- Tem uns vinte metros, o senhor não acha? Falaram que as lâmpadas são quase mil.

-Ah, poeta, árvore de metal... tudo está mudando depressa demais.

- Assim é, Sô Chico. A vida é uma eterna mudança.

- Tem razão... Mudou muito... mudou tudo... agora o Natal começa em novembro. E já chega fazendo mais barulho que Carnaval. É só propaganda e foguete, só foguete e propaganda gritada e escrita em todo canto. De vez em quando, vêm uns malucos pra perto da ávore e fica gritando o dia inteiro, feito doido. Você lembra, poeta? De primeiro o Natal chegava de mansinho, cochichando... Começava a chegar depois do dia quinze de dezembro. Todo ano começava com o rádio cantando

Anoiteceu
O sino gemeu
A gente ficou
Feliz a rezar

Algumas lojas faziam presépio na vitrine, o povo ficava admirando, com dó do Menino Jesus deitado na cocheira, os bichinhos tudo quieto, os Reis Magos adorando... Todo mundo fazia o em nome do pai, rezava baixinho. Era só silêncio, só silêncio e respeito.

- Isso acabou faz tempo, Sô Chico. O espírito natalino que havia naquele tempo mudou... ou acabou, Sô Chico. Tudo virou comércio, tudo virou negócio, Sô Chico.

- Eu sabia declamar sua poesia do Natal, mas esqueci. Como é que é mesmo?

- Começa assim:

Em mim o Natal chegando,
Nascendo em mim o Jesus,
Dentro em meu peito brilhando
A estrela cheia de luz,

Sairei pelos caminhos,
Cidades, ruas, estradas,
Consolando almas magoadas,
Corações cheios de espinhos.

- Não, não é essa. Eu sabia a outra, a que fala de amor e de festa.

- Ah, sei. É o Tema de Natal 2. A última estrofe é assim:

Se uns aos outros não nos amamos,
Se não nos despimos do mal,
Então, por que continuamos
A festejar o Natal ?

- Desculpe, poeta, Eu preciso ir embora. Eu moro longe, pra lá dos trilhos da Mogiana.

A voz do velho está embargada, seus olhos começam a marejar. Apóia-se com força na bengala, fica de pé, começa a caminhar em direção à Praça Barão.

Carlos Assumpção acompanha o caminhar inseguro do velho, com seu surrado traje de sempre: chapéu branco, terno de linho branco, gravata escura.

Daí a minutos, o conjunto se perde em meio à multidão que abarrota a praça famosa.

Mas continua, todo o dia e por muitos dias, iluminando os olhos e o coração emocionado do poeta.

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