A carta

Por: Farisa Moherdaui

Ana Júlia, a minha neta mais nova, oito anos, determinada, inteligente e teimosa é aquela que não aceita ajuda, querendo fazer tudo sozinha e faz, algumas vezes. Dia desses, em sua casa, percebi Ana Júlia com alguma dificuldade em tarefa da escola. Escrevia, apagava, tornava escrever e nada, até que resolveu:

- Vovó, imagina que a professora quer que a gente aprenda a escrever cartas, mas pra que, vovó, se hoje há o computador, e-mails, Facebook, Twiter e tantas coisas modernas que eu já sei fazer e muito bem. Carta, vovó, é passado e quem escreve cartas são as pessoas antigas que não lidam com computador assim como você; o papai falou que quando recebia suas cartas até chorava tão bonitas elas eram.

A coerência com relação ao tempo provou que minha neta é mesmo muito inteligente, sabe tudo, menos escrever cartas e acabou por aceitar a minha ajuda.

- Ana Júlia, a carta para quem? E o assunto?

- A carta para você, vovó, e o assunto sobre o Natal, o catecismo, as férias, papai, mamãe, Ana Luiza que não para em casa, Ana Laura que está namorando firme e até a cadelinha Lola que um dia derrubou você na rua lembra, vovó? Então vamos começar:

- Querida vovó Farisa, amo você e o assunto se estendendo.

Dois dias depois, já em casa na caixa de correspondência, um envelope com o meu nome, endereço e a remetente Ana Júlia Vieira Hehdi.

Mesmo sabendo o que estava escrito naquela folha de papel com desenhos de flores e estrelinhas me emocionei ao ler e reler a cara que minha neta escreveu. A resposta foi imediata e comecei como aprendi com ela, assim:

- Querida neta Ana Júlia, amo você muito, muito...

E o assunto outra vez se estendeu.

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