O Gato do Rabino

Por: Luiz Carlos Merten

Logo de cara, o próprio gato informa que nunca recebeu um nome e foi sempre conhecido como o rato do rabino. É um bom começo para a animação de Joann Sfar, que retoma seu personagem das HQs. Sfar é considerado um dos maiores - o maior? - talento entre os quadrinhistas da nova geração francesa. Para o espectador brasileiro, mesmo o que não se liga nessa forma de expressão, não é um desconhecido. Sfar assinou a live action ‘Gainsbourg - O Homem Que Amava as Mulheres’. Pode parecer bizarro - o que o gato e o cantor e compositor Serge Gainsbourg têm em comum? São ambos questionadores da ordem estabelecida, seja religiosa ou social.

Hollywood, nos últimos anos - e graças às novas tecnologias -, têm aprimorado a arte da animação. Os personagens, sejam a heroína de ‘Valente’, com sua exuberante cabeleira ruiva, ou o rato de ‘Ratatouille’ (que sonha ser chef), são extremamente detalhados e humanizados por meio de uma elaborada riqueza de expressão. E, no caso da Pixar, como gosta de dizer o chefão do estúdio, John Lasseter, mais até do que a técnica prodigiosa, a história é o mais importante e, às vezes, os filmes estão quase estreando e as tramas ainda mudam (e os desenhos precisam ser ajustados). Joann Sfar trabalha na contramão desses conceitos ou concepções, de certo para marcar uma posição.

O desenho do gato é esquemático, e de certa forma não é propício à expressão de emoções, mas aí, surpresa, entra a contribuição do ator François Morel, que fornece sua voz ao bichano do rabino. Morel possui modulações e, mais, confere uma malícia que realça, não propriamente o cinismo, mas o sarcasmo do texto. E não há bem uma história, mas uma sucessão de histórias e vinhetas que servem ao propósito. Sfar situa sua história nos anos 1920, na comunidade judaica de uma Argélia predominantemente muçulmana (claro) e onde a influência cristã é muito forte. Todos esses elementos combinados abrem espaço para uma discussão sobre a aceitação do outro e a pluralidade das crenças. Neste quadro, o gato é um cético que a tudo - e todos - contesta, especialmente os dogmas da religião.

Depois que devora o papagaio da família, o gato começa a falar, o que leva o rabino a ensinar-lhe os preceitos do judaísmo. Ele não se interessa muito - é, como já se disse, um cético que usa conhecimentos científicos para contestar a religião -, mas topa a conversão para poder ficar perto da dona, a filha do religioso, por quem é apaixonado. É outro elemento que aproxima ‘O Gato’ de ‘Gainsbourg - O Homem Que Amava as Mulheres’.

O resultado é muito interessante, especialmente para o público adulto, ao qual ‘O Gato do Rabino’, prioritariamente, se dirige. Lá pelas tantas, entra em cena o personagem de um jovem pintor russo, que embarca o gato (e o rabino, e a filha) na busca de uma mítica Jerusalém africana. Essa cidade é a nova terra prometida, uma utopia na qual não existem diferenças. Ou melhor, na qual as diferenças são aceitas e todos vivem em comunhão. ‘O Gato do Rabino’ não é para todos os gostos, mas é um sonho que vale sonhar (acordado).
 

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