Funiculi funiculá

Por: Everton de Paula

Na época era a maior novidade: cestas de Natal Amaral. Depois veio a Columbus. Eram cestas mesmo, de vime, em formato de caixa, muito bem armadas, enumeradas de acordo com o tamanho e as posses do comprador (de 1 a 5). No Natal de 1957, meu pai comprou uma cesta de Natal Amaral nº 4. Bastava à nossa família. Na véspera de 25 de dezembro, à tardezinha, um caminhão vinha subindo a Rua Júlio Cardoso, parando nesta e naquela casa para entregar as cestas às famílias compradoras. Nós, crianças, esperávamos na calçada a nossa vez, com um rabinho de olhos voltado para os vizinhos, como a dizer: “Este ano teremos uma cesta de Natal. E vocês?” Qual o quê! No dia de Natal, pela manhã, meu pai desembrulhou todos os produtos: nozes, avelãs, vinho, torrones, chocolate, castanhas portuguesas... Reservou um pouco para nós e o que sobrou (e sobrara muito), foi até os vizinhos que não tinham comprado a cesta e distribuiu entre todos. Por surpresa minha, meu pai não era o único a agir assim: o mesmo ocorreu com Alfredo Costa, Orestes Moretti, Joaquim Bordignon e Augusto Coelho. E fez-se a paz e o sorriso fraterno no Natal de 1957.

• Um dia, no antigo primário (IETC), o diretor ‘seu’ Júlio entrou inesperadamente na classe e foi logo exigindo: ‘Peguem uma folha de caderno e escrevam o que acham de sua professora.’ No caso, a professora era dona Elza César Conti. Eu escrevi algo que deve ter enchido de orgulho o ‘seu’ Júlio, pois ele me devolveu na hora a pequena redação e pediu para que meus pais a assinassem. Guardo até hoje. Escrevi o seguinte: ‘Paresse que a dona Elza acha dissionário essensual.’

• Uma das coisas mais difíceis que eu acho de fazer é a tal da dieta. E verdadeiramente ando precisando de uma. O duro é aguentar quem está comendo menos e já emagreceu um pouquinho a olhos vistos. Como eles se gabam! Eu nada teria contra as pessoas que comem como pintassilgos, se elas parassem com o chilreado que sempre fazem a respeito.

• Quando eu era criança (mas que já aprendera a ler), havia uma coisa que me encabulava. Morávamos perto do Açougue Teixeira, na Rua Júlio Cardoso. E o açougueiro costuma colocar cartazes anunciando peças de carne. Certa vez, fiquei pensando muito numa placa que dizia, em frente ao açougue: ‘Olhe a língua!’

• Pense bem: é melhor a gente não se impressionar pelas palavras pomposas e longas. Elas significam coisas sem importância. Por outro lado, todas as coisas realmente importantes têm nomes curtos: vida, morte, fome, sede, medo, fé, dia, noite, ódio e amor.

• Nossa professora de História, dona Branca (IETC), tinha fama de dar nota baixa. Quando um aluno lhe perguntou por que só tirara sete num teste em que a nota máxima era dez, dona Branca explicou seu sistema de dar nota: - Sete é uma boa nota. Oito é uma nota excelente. Nove é quando o aluno disse tudo o que sabe; e dez, quando o aluno me ensinou alguma coisa!

• Vivemos uma época de desencontros éticos. Sabemos mais sobre a guerra do que a paz, sabemos mais sobre a depressão do que como viver. Aprendemos a leis das vantagens pessoais e rejeitamos o Sermão da Montanha.

• Completei um ano como avô de um menino muito esperto e agitado. Cheguei a uma conclusão: Deus sabe o que faz quando manda crianças para gente jovem.

• Gosto muito de uma frase de Ambrose Bierce, escritor norte-americano (1842-1913): ‘Em cada coração humano há um tigre, um porco, um burro e um rouxinol. A diferença de identidade em suas respectivas atividades é que faz as diferenças de caráter.”

• Cheguei a uma conclusão inevitável: nada desvaloriza mais um carro do que tentar vendê-lo.

• A honestidade jamais descerá ao nível de um partido político. O partido político é que tem de erguer-se até a honestidade. É uma bênção que tem de ser conquistada antes de ser o lema de um partido que se julga moralista e dona absoluta da verdade.

• Quando você percebe que o principal já está feito e que o resto é pura espera, a velhice e o desânimo já se instalaram em sua alma. Fique atento!

• Eu sou um professor aposentado muito feliz. Todos os ex-alunos que encontro hoje na vida me sorriem francamente quando me cumprimentam, como a dizer: ‘Valeu a pena, viu?’

• - Posso ir no banheiro?... - A Daniela me chutou... - É com lápis ou de caneta?... - Deix’eu apagar a lousa? ... - O Rodrigo não fez a lição... -Fecha a cortina, meu!... - Quem roubou a minha régua?... - Para de chutar a minha carteira... - Me espera na rua que te arrebento as fuça... -O Ricardo tá com o dedo no nariz... -Gente, silêncio, o professor tá esperando... - Tô de mal, viu?... - Cadê meu apontador?... - Deix’eu distribuir as cadernetas?... - Posso fazer a chamada hoje?... - O senhor já corrigiu as provas?... - Me dá meio ponto pra mim fechar?... - Tô apertado!... - Eu? Mas eu não tô fazendo nada!... - Ah, não, redação outra vez não... - É com x ou ch?... - Como é que começa?... M’impresta a borracha?... - Já disse pra não chutar minha carteira... - Não tem lição pra casa?... Acordei assustado, suando frio! Outra vez o mesmo sonho: dando aula na quinta série! Quando isso vai acabar?

Pensando bem, este é o primeiro Natal do início do resto de minha vida que passo com o coração leve: a sensação de que o principal já foi feito, e que agora é compartilhar o que aprendi com os ouvintes deste e daquele cursos. Filhas formadas, família organizada e feliz, 33 anos de casado e ainda unidos pelo mesmo compromisso, estabilidade, muitos amigos, dissabores mínimos... Só uma coisa não mudou: o peru sou eu que tenho de temperar, assar, preparar as farofas doce e de sal... Funiculi, funiculá, aos poucos chegaremos lá! Feliz Natal a todos os meus amigos e um doce beijo em Vítor e Ana Alice, meus dois primeiros netos!

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