O Décio Pignatari que conheci

Por: Caio Porfirio

Não fui amigo próximo de Décio Pignatari, mestre da poesia concreta, que divulgou amplamente com os irmãos Haroldo e Augusto de Campos. Buscava inovar tudo, no campo da poesia e da arte em geral. Inteligentíssimo, culto e brilhante. Faleceu recentemente.

Tivemos encontros casuais, conversamos banalidades, nada de literatura. Esteve ele duas ou três vezes na sede da União Brasileira de Escritores tratando de assunto de que não mais me lembro.

Anos atrás, a Universidade São Judas Tadeu, de São Paulo, realizava, sob orientação do saudoso professor Fábio Teixeira, um concurso anual de poesias, entre os alunos do Curso de Letras. Centenas de concorrentes. Era feita uma pré-seleção dos melhores com os próprios professores. Depois entrava uma comissão julgadora para a escolha final dos dez finalistas que seriam premiados. Invariavelmente, comparecia um membro da União Brasileira de Escritores, um outro nome de expressão das letras, e o terceiro da própria Universidade. Este o trio final para escolher os vencedores. Fui convidado várias vezes, representando a UBE.

Num dos concursos, a Faculdade convidou o Décio Pignatari. Eu compunha o trio. Estávamos lendo os pré-selecionados quando chegou o Décio, atrasado e se desculpando. Leu rapidamente os poemas que estavam sobre a mesa e mostrou-se incisivo: ‘Nenhum presta.’ Protestei de imediato: ‘Ah, não, Décio. São jovens. Estão começando. Alguns ainda presos ao romantismo de Casimiro de Abreu. Vamos devagar. Este concurso anual é um estímulo maravilhoso.’ Ele calou-se, leu os poemas várias vezes e quis incluir um que, para mim, era uma garrancheira total. Perguntamos, eu e o outro julgador: ‘Por que este, Décio?’ Respondeu: ‘Vamos incluí-lo como pesquisa poética. Vejam que passou na pré-seleção.’ Quis tirar estrofes de outros. Não concordamos. Enfim, depois de muita ufa ufa, sem briga e na cordialidade, chegamos aos finalistas.

Fomos para o salão repleto de alunos e professores. Bati-lhe no ombro: ‘Você é fogo, Décio.’ Retribuiu logo: ‘E você, com o seu Casimiro...’

Fez um discurso brilhante, hipnotizou o auditório. Uma verdadeira aula sobre poesia para iniciante. Nem parecia o mesmo, na discussão quase sem fim para escolher os melhores.

Fomos depois para o coquetel. Na saída eu lhe disse: ‘Décio, um coquetel como esse, ‘os anos não trazem mais . ‘ Soltou uma risada.

Daí por diante, quando me encontrava, eu repetia: ‘Pois é, Décio, os anos não trazem mais . . . ‘ Apenas ria.

Um talento borbulhante, em busca permanente de inovações no campo da Arte.

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