O outro lado

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Sua infância não justificava o seu temperamento irascível. Crescera saudável, estudara, trabalhara, mas trazia em si o gene da irritabilidade. Manifestara-o pela primeira vez quando, repreendido pela professora, puxou a carteira e queria jogá-la em cima dela. Daí em diante, não aceitava provocações e se vangloriava de ser assim. Os interesses juvenis minimizaram este caráter violento, que ressurgiu, com força, na idade adulta. Vivia insatisfeito, proferindo palavras rudes, assistindo aos programas de TV de conteúdo sensacionalista, com muitas mortes, traições e cenas deprimentes. Odiava futebol e suas comemorações, tinha horror aos foguetes, inclusive os que saúdam o Ano Novo. Sentia-se pior na época natalina, quando as pessoas se aproximam mais. Criticava o mérito de outros, sempre vendo uma falha ou ilegalidade. Proferia comentários mordazes diante de histórias inocentes. Desconfiava de negócios milionários, apostando na má fé dos envolvidos.Quando se alterava, o que acontecia com frequência e pelos mais banais motivos, sua possante voz retumbava como trovão, seus olhos cor de mel perdiam a docilidade e faiscavam de raiva. Lembrava-se de fatos acontecidos, em tempos distantes, e condenava as pessoas que os protagonizaram, mesmo se já tivessem morrido. Era incrédulo e não cuidou do desenvolvimento pessoal, deixou o lado sombrio prevalecer.

Se não bastassem todas essas características, ele, pessoalmente, não tinha planos, nem objetivos. Vivia o dia a dia, sozinho, sem sonhos, sem projetos e não via nada a sua volta que lhe desse prazer. Pessimista, sempre esperava o pior. Não ria, nem contava anedotas, apenas histórias mirabolantes de desavenças e confrontos.

Em idade mais avançada, a intolerância aumentara, discutia e brigava com clientes e comerciantes, no trânsito, nas filas de bancos, balcão de farmácias, lotéricas, lojas de materiais, consultórios médicos. Decidiu se afastar, viver no isolamento. Mudou-se para a zona rural, com poucos vizinhos e muitos cães, pois os achava melhores que os humanos. Em pouco tempo a paisagem foi se modificando. As pastagens verdes perderam a cor, árvores foram morrendo, pimenteiras secaram, as viçosas plantas com flores penderam, passarinhos tombavam mortos no quintal, animais definhavam, menos os cachorros que pareciam cada vez mais sadios. Os vizinhos rareavam assustados com a devastação do lugar. Ele nada fazia, ensimesmado, quase não conversava, apenas murmurava alguns monossílabos. A atmosfera do local era lúgubre, um vento árido, incessante, empoeirava a casa, os esparsos móveis e o que restava de vida lá.

Um vizinho curioso que se atrevera a chegar mais perto da casa foi o último que o viu e, horrorizado, correu a contar para todas as pessoas que encontrava, entre soluços de susto, que o homem estava numa cadeira de balanço, encurvado, com o corpo todo coberto de imensos pelos negros, grandes orelhas, olhos vermelhos, boca pontuda e patas enormes, rodeado de inúmeros cães. Ele não vira o rabo, mas, com certeza, estava lá.

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