Anunciação

Por: Eny Miranda

Elas chegaram assim, sopro de clara nuvem: muitas, alvíssimas, equilibristas de longas hastes, abertas ao ar em corpo, alma, cetins, luminescências... irradiando a leveza e a brancura da neve que flutua e pousa nas folhas, nos galhos, na memória... Algumas delas ainda cerradas, quase esféricas, pérolas-promessa, abrigando a esperança da vida que se insinua e se resguarda, casta, entre sépalas e pétalas curvadas sobre si mesmas - expressão do olhar intimista de quem assiste, no próprio ventre, ao milagre da geração; silêncio majestoso de quem se sabe grávida de beleza. Enlaçadas em organza e fios de seda, eram a mais pura anunciação de Natal e os mais delicados e auspiciosos votos que se poderiam conceber de um ano verdadeiramente novo.

Meu olhar se põe de joelhos diante dos acetinados braços que abraçam a vida; minha alma levita ao frouxo desfazimento desse abraço, ao gesto de abertura, de libertação, de oferecimento dessa vida à luz; meu coração pulsa louvores às túrgidas e macias conchas descerradas, que (se) expõem (em) generoso aceno de acolhida. Todo o meu ser se curva e se eleva, à vista dessaimaculada sinfonia, porque sabe: Deus está ali, o Amor está ali, no ventre e no fruto, no corpo e na alma daquelas mensageiras de paz que me visitam e já me habitam; daquelas nevadas, límpidas, orquídeas criaturas.

Luminosas, em corpo, alma, promessas e cumprimentos, elas chegaram, antieuclidianas, rompendo, aclarando, amanhecendo, primaverando este meu áporo e crepuscular início de verão.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras