O Livro das Horas de Nélida Piñon

Por: Sônia Machiavelli

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“Vivo em estado de expectativa, na tentativa de vencer um dia após o outro. Ausculto as demolições interiores e consolo-me com as noções de fracasso que rondam minha casa. Temo alcançar o cume do Anapurna e saber contestar o valor deste troféu. Viver, agora, é minha única estratégia. Sem pretender a santidade, o que já é um alívio. Ou conciliar o meu caos com os conflitos sociais. Alimento escassos desejos. Como reencontrar Clarice, Jorge e Zélia, Afrânio, Rawett, Osman, Scliar e outros que já nos deixaram. Foram bisões que se orgulhavam em lutar pela liberdade do ofício literário. E neste hipotético encontro propor-lhes que nos cumprimentemos como os cistercienses de outrora, ao se reencontrarem: morir habemos, ya lo sabemos.”

Este parágrafo, com o qual o leitor se depara já no terço final do recém-lançado Livro das Horas, de Nélida Piñon, reúne de forma sincrética o espírito da obra, feixe de memórias aglutinadas não pela proximidade no tempo ou sua ocorrência na linearidade. Fugindo à cronologia, a escritora traz à tona lembranças fragmentadas e resgatadas por uma consciência de que narrar-se é registrar mais emoções que fatos no plano desta casa metafórica que é o ser, imagem recorrente nos textos que assumem os mais diversos gêneros: prosa e poesia, crônica e narrativa, ensaio e autobiografia, ficção e notícia.

Na entrevista em que falou sobre o lançamento do livro, Nélida disse que “sim, é uma obra sobre a memória, mas não apenas individual: também coletiva, pois é necessária a presença do outro para existir a reflexão e aqui busco refletir sobre o amor, a morte, a desilusão, sobre o mundo, enfim”. Essas reflexões não apenas incluem seus amigos escritores, acolhem também no campo de um diálogo possível o leitor, aliciado por um discurso que, embora de grande erudição, é capaz de repercutir em todos, mesmo os nada versados em cultura helênica, um dos pilares que norteiam o pensamento de Nélida: Micenas, Homero e Atenas o tempo todo emergem das estruturas profundas deste pensamento que busca também nos mitos compreensão para as tragédias do cotidiano, ocorram elas em Nova York, Fez, Paris, Rio de Janeiro, Salzburg, ou alguma aldeia da Galícia, onde seu pai e avós maternos foram gerados.

O estilo coloquial e uma divisão em tópicos que variam de extensão, podendo ir de quatro linhas a três páginas, facilitam a leitura dos temas não organizados em hierarquia. Em qualquer página que ao acaso se abra, estará Nélida questionando a existência de maneira literária mas nunca pedante, usando metáforas belas e claras para traduzir seus pontos de vista e cosmovisões: ‘“Viajo o tempo todo. Dentro e fora de mim. Como exilada, tenho a pátria certa no coração e as outras na imaginação. A cada semana corro o risco de ser banida de mim mesma, mas prossigo.”

Os relatos pontuais são poucos e de tom reservado, pois discrição é traço forte da autora, segundo seus amigos que são muitos. Assim, ao duvidar da versão de Benjamim Moser, em biografia lançada há algum tempo, sobre o estupro da mãe de Clarice Lispector, Nélida (que esteve com a autora de Perto do Coração Selvagem até o instante final, segurando-lhe as mãos junto com Olga Borelli), faz uma contestação firme mas em nenhum momento deselegante. É também com parcimônia respeitosa que, ao narrar o gosto de Clarice pelas cartomantes, introduz o leitor num mundo onde são reveladas facetas muito humanas da grande ficcionista brasileira de origem russa. E percebe-se muita delicadeza nos momentos em que nos oferece nesgas de sua própria intimidade, no presente habitado diuturnamente pelo vira-latas Gravetinho, objeto de paixão declarada: “ele é a alegria de meus anos maduros.”

Bem próximo das páginas finais, escreve Nélida: “ Desde o berço sou escritora. Ao abrir os olhos jurei ter fé nas palavras, com elas contar uma história. Este ofício, acaso mundano e perverso, me compromete com a fala poética, com o discurso do mistério, com o coração da língua. Mas, na condição de aprendiz, rastreio o transcurso literário de antecessores a fim de saber onde eles estiveram, e eu não estou. A quem eles amaram, eu não amei. Consulto enciclopédias, e os rostos destes escritores divergem do meu. São contrários ao meu, de hoje. O coração, a língua e o século, a que estiveram atrelados, os distanciam de mim. Ainda assim, devo-lhes gênese e aprendizagem”. É por trechos assim que Livro das Horas pode ser lido também como maiúscula profissão de fé na palavra escrita, revelando ao leitor outro bisão no panteão dos que elevaram a língua portuguesa a um patamar de alta realização literária. A própria Nélida Pinõn.

LITERATURA DE PRIMEIRA

Nélida Pinõn

Filha de Lino Piñon Muiños e Olívia Carmen Cuiñas Piñon, espanhóis de origem galega, a menina carioca nascida no dia 3 de maio de 1937 recebeu um nome que era homenagem ao avô. Nélida é anagrama de Daniel.

Formada em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, tornou-se ainda muito jovem editora e membro do conselho editorial de várias revistas, no Brasil e Exterior.

Estreou na literatura com o romance Guia-mapa de Gabriel Arcanjo, publicado em 1961, depois de ter passado pelos olhos exigentes de Rachel de Queiroz. Os temas predominantes deste livro são o pecado, o perdão e a relação dos mortais com Deus.

Sua obra ali iniciada contemplaria todos os gêneros literários: romance (Madeira feita de cruz, Fundador, A casa da paixão, Tebas do meu coração, A força do destino, A república dos sonhos, A doce canção de Caetana, Vozes do deserto); conto (Cortejo do Divino e outros contos, Tempo das frutas, Sala de armas, O calor das coisas, O pão de cada dia); crônica (Até amanhã, outra vez); ensaio (O presumível coração da América, Aprendiz de Homero, O ritual da arte), memória ( Coração andarilho e Livro das Horas); infantil (A roda do vento).

Os livros de Nélida Piñon foram traduzidos em muitos países e ela tem recebido incontáveis prêmios ao longo das últimas três décadas, como o Golfinho de Ouro, o Mário de Andrade, o Jabuti, este pelo romance Vozes do deserto. O mais recente foi o ilustre Príncipe de Astúrias, em 2005, conferido na cidade espanhola de Oviedo. Ela concorreu com Paul Auster, Philip Roth , Amos Oz e outros dezesseis nomes conhecidos internacionalmente.


Serviço
Título: Livro das Horas
Autor: Nélida Piñon
Editora: Record
Ano: 2012
Onde comprar: Nas livrarias de Franca
 

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