Tapioca de sensibilidade

Por: Débora Menegoti

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Desabitei os planos, quero devolver-me ao estado de paz. Cerro as janelas para não ouvir meu próprio soluçar abafado como fita de água pingando no chão. Arregaço as mangas e vou pomar adentro arrancar mandiocas. Fazer força em outra direção.

Vou cuspindo cacos de vidro e dragões. Foi assim que percebi que é brutalmente que devo arrancar-te desse meu coração mole e tolo; assim como se arrancam mandiocas do chão.

Quero vestir tua falta como roupa nova. Não adotá-lo como segredo primordial. Lançar longe as ternuras de lembranças, esquecer teus pés, a nascente de teus olhos... Labirinto...

Mas tenho em minhas mãos o fio de Ariadne.

Desregrado, infiel, persistente parasita! Tua doçura não me ilude mais, você está se dissolvendo... Você está por um fio!

Enquanto ralo e faço das mandiocas a farinha, vou praguejando, vou desmitificando teu encanto...

Ele afronta-me, rouba-me a guarda, faz-me ralar o dedo... Desperdiça-me, cai massa pra fora da bacia... Despe-me de todo valor, desrespeita-me entre vinhos flores e bombons caros.

Tu és do tamanho de um Golias, um Golias serenizado, devastando surdo aos meus pedidos os canteiros que cultivei sozinha. Tu arrancas com tuas mãos, tão dóceis quanto as mãos de um médico, lascas uivantes de minha vida e as engole sem mastigar, ainda cruas.

Coloco na frigideira a brancura do pó que ao estalar me desperta deste pesadelo intangível, como o descompasso louco atrás de divindades a escorrer das frutas que existem para enfeite; não para serem comidas. E ali então, imóveis como você agora a ler (talvez com amargura ou cansaço). Apodrecerão? E eu... Comerei a tapioca com fome de ti e perfumarei de vento a nova alegria dissabor de te apagar em mim como apago esta chama.

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