A força das palavras

Por: Jane Mahalem do Amaral

O escritor e jornalista Diogo Mainardi lançou recentemente um livro, A Queda, que consta na lista dos mais vendidos em 2012. Ele conta em 424 passos a história de seu filho Tito que nasceu com uma paralisia cerebral, causada por um erro médico ocorrido no momento do nascimento. É uma obra que nos leva do espanto à emoção e, acompanhar cada passo do autor desde a rejeição à aceitação, nos incomoda ao mesmo tempo que nos envolve numa compreensão profunda do que é um carinho verdadeiro, amadurecido pela dor e pela cumplicidade.

O livro me encantou, mas o que mais me chamou a atenção está na primeira página, do primeiro capítulo. O casal estava vivendo em Veneza por ocasião do nascimento do bebê e, ao entrar no hospital, sua esposa disse estar com medo do parto. Segundo o autor, o hospital de Veneza está instalado em prédio histórico do ano de 1808 e possui uma linda fachada arquitetada por Pietro Lombardi, em 1489. Ao ouvir o sentimento de sua esposa em relação ao parto, o autor assim responde: “Com esta fachada, aceito até um filho deforme.”

A partir desse frase, tudo acontece, atropeladamente, até a triste notícia recebida pelos pais sobre a paralisia cerebral do filho.

É preciso ler o livro para acompanhar os passos desse pai, mas quero ficar apenas na compreensão e na força que têm as nossas palavras. Há um conhecido provérbio chinês que diz:’Há três coisas que jamais voltam: a flecha lançada, a palavra dita e a oportunidade perdida.’. O que é dito não tem volta e toma rumos improváveis. O que dizemos, com convicção ou não, tem uma energia que vai navegar no universo. E, este universo, ou essa força cósmica, entende nossa palavra como um desejo e assim ele atua para que aquela palavra se realize. Nós conhecemos várias histórias como a desse escritor. Já ouvimos casos que terminam assim: “Foi só ele falar, aconteceu”. E também quando nossas palavras mostram descrença: “Ah! Isso não vai dar certo, mesmo...”ou “Não sei o que acontece, mas esse negócio não vai pra frente...” Quando fazemos essas afirmações, estamos dizendo que não acreditamos naquilo e, assim, nada mesmo se realiza porque nossa energia não está ali, nosso foco está na negação e não na crença.

Isso parece misticismo, autoajuda ou crendice popular?

Creio que podemos buscar alicerces sólidos para refletirmos sobre esse assunto. No Evangelho, Jesus diz: “Que vosso sim seja sim, que vosso não seja não”. E nos explica Jean-Yves Leloup: “A palavra pode ser luz, mas ela pode também destruir. Tudo que é dito a mais é acréscimo, é do mental, é da ilusão. Dizer as coisas tais como elas são, nem mais, nem menos.”

Outra vez o bom senso e o discernimento. Quantas vezes falamos coisas brincando, mas que ofendem o outro profundamente. E, na verdade, não queríamos ter ofendido, mas fomos, simplesmente descuidados com a palavra.

A verdade é que nossa mente se alimenta de pensamentos. E de qualquer forma ela será alimentada. Se dermos a ela bons pensamentos teremos boas palavras, caso contrário, palavras ditas podem nos conduzir a lugares nunca antes desejados.

A dolorida trajetória do autor de “A Queda” pode nos ensinar mais do que os fatos. Pode nos levar a compreender forças maiores escondidas nas palavras.

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