Até que enfim

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Ontem a cidade levou susto. Caiu tempestade, caíram raios, choveu granizo, as bocas-de-lobo se revelaram mais uma vez ineficientes, houve alagamentos, as ruas se encheram de água e lama, ficaram escorregadias. Uma mulher perdeu o controle do carro, o veículo se precipitou no córrego, ficou de pernas pro ar. Dois homens que passavam pelo local agiram heroicamente: amarraram-se em cordas, entraram na correnteza lamacenta, salvaram a motorista sexagenária.

Eu tomei conhecimento do ocorrido, de forma muito sucinta, através do noticiário da televisão. Na manhã seguinte, dirigi-me à Praça Barão, onde certamente recolheria todas as minudências dos eventos da tarde e da noite anteriores.

Caí do cavalo.

Chegando à praça, minha surpresa foi maiúscula. O local, como sempre, parecia pequeno, com os bancos e as alamedas abarrotados de desocupados. E o estranho era que nenhum grupelho se ocupava de chuva, de violência, de destruição, de acidente automobilístico. Em cada tenda, o assunto era único, repetitivo: a aposentadoria do Ronan.

Eu desconhecia o fato, fiquei feliz pelo meu amigo. Até que enfim: depois de mais de quarenta anos e milhares e milhares de tentativas de intermediar transações imobiliárias, saboreando fracassos na sua quase totalidade, o corretor Ronan finalmente alcançou o direito à aposentadoria.

A conquista é merecida.

Percorri grupos, anotando a avaliação das pessoas. Na porta do Senhor Café, recolhi a reflexão do corretor Severino:

- Estou preocupado é com a Previdência Social... Vai ter um déficit deste tamanho... Vai ter de pagar um salário mínimo todo mês pro Ronan... Vai ser um desbronco... A presidente que se cuide.

Na porta do Francafé, acontecia discussão entre o Edu e o Ismar.

- Agora o tio Ronan vai poder descansar, fazer umas pescarias.

- Descansar? Descansar de quê? Ele nunca trabalhou na vida...

O barbeiro Dê fez ironia.

- Será que ele vai conseguir ficar sem fazer nada? Pra quem está desacostumado, deve ser difícil ficar à toa

Na segunda feira, entrei no Cartório, cumprimentei a Regina, ela já veio perguntando:

- Tá sabendo? O seu amigo aposentou.

- Ah, estou sabendo... Está todo mundo satisfeito.

- Todo mundo satisfeito? Eu, não. Ele já vivia aqui o dia inteiro, imagine agora... É capaz de mudar pra cá. Deus me livre.

Mais tarde, passando pelo Bar do Pardal, ouvi as preocupações do proprietário ao comentar a notícia -nada alvissareira para ele - da aposentadoria do amigo comum..

-Agora, com tempo, ele vai aumentar ainda mais a conta dele aqui...

E assim tem transcorrido a semana: aonde quer que chegue, há alguém comentando a aposentadoria do Ronan. Está difícil de agüentar. Já estou até torcendo pela ocorrência de fato extraordinário. Se a Francana fosse campeã, por exemplo, talvez esse povo mudasse de assunto.

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