Sovina?

Por: Heloisa Pereira de Paula Reis

Ela guardou seu dinheiro por tanto tempo, que ao morrer encontraram verdadeira fortuna em sua casa. Tinha poupado para mais tarde. Mas como foi tarde demais, o dinheiro ficou para o outro, que aproveitou cada centavo, a realizar seus desejos. Os seus e dos outros.

Cada dinheiro a ser gasto, era por ela analisado, pensado até demais. Para ela era primordial. Afinal, era filha de um “mão-aberta”, cujo dinheiro passava pelos vãos dos dedos.

Passou a vida a fazer contas, pensando sempre no futuro, a imaginar uma velhice calma, serena, independente de tudo e de todos. Essa expectativa de uma melhor qualidade de vida na velhice movia seus passos.

A tão sonhada viagem foi protelada para mais tarde. A perder de vista. Era um luxo que a ela não cabia. Talvez um dia, quem sabe...

Roupas de marca nem pensar. Precisava economizar. Afinal, era conhecida por sua sovinice. Ela, que costumava poupar para mais tarde... Era até engraçado. Ninguém entendia seus objetivos.

Frequentar restaurantes aos finais de semana foi deixado de lado por tanto tempo, que ela nem sabia mais se era boa ou não a comida preparada por profissionais.

Ir ao cinema? Apenas uma vez por ano. Presenteava-se ao término da sessão com uma deliciosa banana Split, seu único luxo. Anual. E olhe lá.

Cobiçar os livros de sua prima fazia parte de seus dias. Nunca comprava um único sequer. Frequentava bibliotecas. Livros bons, mas nunca lidos tão logo aparecessem nas livrarias. Deles só ouvia falar e pacientemente os esperava. O orgulho impedia que os emprestasse de alguém. Imagine...

Com o tempo desfez-se de seu telefone. Afinal...

Seus poucos amigos não pensavam que o futuro só seria melhor se no presente fosse pensado. Coitados.

Imaginou ter aprendido com o que julgava defeito em seu pai. Entre ser uma gastadora ou alguém que poupa com exagero, pensou ter escolhido o meio termo. Pensou...

A mesquinhez fazia parte de seus dias e ela não se percebia assim. Sua vida era metódica, entediante. O seu economizar era malvisto por todos que a conheciam.

Pobre mulher. Viu a vida passar através da janela, a espiar a vida do outro.

A sua tinha sido protelada para ser vivida num futuro que nunca se tornou presente...

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