As canções às quais pertenço

Por: Maria Luiza Salomão

Trilha sonora da alma,
essa muda que fala

 

Assisti, em janeiro de 2012, ao documentário As Canções, de Eduardo Coutinho (deve existir para locação). O cineasta entrevistou 42 pessoas capazes de contar uma história através de canções que marcaram suas vidas (fez um anúncio no jornal). Foram selecionadas 18, que deveriam sentar em frente à câmera, sozinhas. As canções das pessoas entrevistadas eram, em sua maioria, do Roberto Carlos, diz Coutinho (“daria para fazer um filme somente com as músicas do Rei”). Todas cantaram com a alma à flor da garganta, com uma sensibilidade que, se não os tornam cantor ou cantora, conferem uma afinidade incrível e intensa com os espectadores.

Coutinho confia que a pessoa esqueça a câmera e encarne o que tiver que encarnar.Um dom, o seu, de permitir a encarnação de algo maior do que aquela pessoa comum, não é atriz ou ator, e que nos faz esquecer o diretor. As pessoas-personagens tomam o espaço da tela, e o da nossa atenção. Ficamos íntimos daquelas pessoas, e Coutinho chega a cantar, com uma entrevistada, Fascinação (e não me pareceu que constava do roteiro).

Vão surgindo o filho e sua mãe (costureira) que trabalhava cantando uma só música Esmeralda. O filho chora (a gente pensa que sua mãe morreu, mas não), ele se surpreende com o próprio choro, sem se entender. Todos, a guardar, em frascos sonoros, perfumes de eternidade.

Há momentos de riso que molham nossos olhos. “Vemos” a trilha sonora, e cantamos, baixinho, as músicas populares, famosas, antigas, em atmosfera que desvela preciosidades da alma, respeitosamente.

A última mulher do filme encanta, na música Retrato em branco e preto, linda, afinadíssima, cantando o “fim” de um caso complicado. Ela sai de cena e nos deixa aquarelados. Uma outra revela uma trama que não quer esquecer, daí a música, embalagem perfeita.

A memória afetiva pode se lastrear em gestos, palavras, cheiros, imagens, e a música evoca muita coisa, interiormente. Revi meus discos long-playing, guardados há décadas. Doei muitos deles para uma amiga. Mantive 79 e estou garimpando uma vitrola semelhante à que doei, sem pensar. Neles, o Caetano Veloso reina. Gal Costa, Gilberto Gil e Rita Lee, que me dançavam, me alçavam voos. Ney Matogrosso e Milton Nascimento (todo o Clube da Esquina) me pausavam. Seduzida por Djavan... De Chico Buarque, quando alfabetizadora, quase furei Os Saltimbancos. Beethoven, João Gilberto, Egberto Gismonti, “modas de viola” e jazz, de raiz. Baiana, paulista, carioca, mineiríssima, raiz afro, ressôo brasileira antropofágica.

O ser humano é tecido, ritmado e sentidamente, com fios de memórias, em sons e silêncios, atmosfera de acolhimento. Como disse Millôr “novo mesmo só coisa antiga” (cic Manoel de Barros).

Coisa antiga, assim, são verdades que permanecem. O étimo de Verdade está ligado a “não esquecimento” ou “desvelamento” (retirada dos véus que a encobrem). Da experiência pessoal não se esquece. Coutinho registrou nichos da alma, o invólucro artístico que os seus entrevistados escolheram (ou foram escolhidos) para os seus dramas. Os 18 “entreouvidos” me relembraram as canções às quais eu pertenço...e sou.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras