Uma pequena lembrança

Por: Everton de Paula

Talvez em tivesse doze ou treze anos de idade. O cine São Luiz, em Franca, anunciara com duas semanas de antecedência a exibição do filme Ben-Hur. Começaria num sábado a noite. Duas sessões: às 19 e às 21h30. A fila era imensa, estendia-se pelo quarteirão da Rua Campos Sales, atrapalhando os poucos frequentadores do Cine Odeon, ali vizinho a poucos metros. Quando restavam umas dez pessoas à minha frente, colocaram o aviso na bilheteria: “lotação esgotada”. Decepção. Tentei no domingo; cheguei mais cedo, porém não o suficiente. Perdi as sessões. Mas não poderia perder o filme que seria exibido ao longo da semana. No entanto, havia um detalhe naquele início da década de 1960: cinema era diversão para finais de semana e não durante ela. Delícia era entrar no cinema e encontrar os amigos, duas ou três meninas que faziam o coração da gente bater mais forte; cheiros de perfume e bala Chita que se misturavam no ar, as músicas preliminares, antes do fechar as cortinas. Durante a semana, não o recinto e o ambiente pareciam distantes, frios, indiferentes à sua presença, muito pouco acolhedores. Você estava sozinho, sentava-se sozinho, ria ou “torcia” sozinho contra o bandido; ou seja, não havia graça alguma.

Mas, naquele mês muito frio de junho, em não via outro jeito: ou assistiria a Ben-Hur no meio da semana, ou perderia o filme e não teria o que falar sobre ele no pátio do IETC, no recreio, ou na borda da piscina grande do Clube dos Bagres.

Quando me arrumava para ir ao cinema em plena quarta-feira à noite, houve estranheza em casa. Como assim? Aonde você vai? Com quem você vai? Com quem você volta? Fez todas as lições de casa? Mas amanhã você não tem aula? Respondidas todas as questões e explicada a razão do fato inusitado, vesti uma blusa de lã e me pus a caminho. Sozinho.

A fila era pouca. Não havia perfume no ar. As pessoas eram estranhas, mais velhas, aos pares, como estranho era ver apagarem as luzes e um tanto considerável de poltronas ainda vazias.

Fecharam as cortinas, tocaram a música de entrada, passaram na tela imensa do São Luiz os slides fixos de propaganda, depois os noticiários, lances de futebol no Maracanã, pedaços de filmes que viriam a passar e, por fim, o filme esperado.

Não teve graça alguma, o filme não me encantou, a bala não tinha o mesmo sabor dos finais de semana, mudei duas, três, quatro vezes de lugar, fui ao banheiro, voltei, experimentei sentar-me no mezanino do cinema, até que o The End apareceu na tela, para o final do meu desassossego. Saí.

As poucas pessoas se espalharam nas ruas, até sumirem de vez. Súbito, uma experiência nova: encontrava-me sozinho nas ruas desertas. E já era bem tarde, muito tarde para um dia de semana, algo por volta das 10h30, ou mais um pouquinho. Achei melhor caminhar na calçada, bem perto das paredes das casas. Ali estava a Santa Casa de Misericórdia um leve cheiro de éter no ar. Depois, as quaresmeiras no final de seu perfume inconfundível. Os pneus de um antigo Chevrolet vibraram ao passar sobre os paralelepípedos da Rua Júlio Cardoso. Vencido o primeiro quarteirão. A casa do Sebastião Miranda à esquerda. Devia estar dormindo, agora. Aliás, a minha classe inteirinha deveria estar na cama, e eu ali, sozinho, entregue às sombras da noite. Claro, essas impressões eram ampliadas por uma neblina própria de inverno, deixando ver apenas as lâmpadas amareladas dos dois ou três postes à frente. Nada mais.

Outro quarteirão e a velha casa assobradada do turco. Uma janela estava ainda aberta, mas com as vidraças descidas. Vinha uma luz tênue lá de dentro. À medida que eu me aproximava, escutava mais claramente alguém falando uma fala estranha e cheia de reticências e mágoa... Um bar de esquina fechava sua última porta; o dono insistia em manter o rádio ligado e eu ouvia uma canção interpretada por um casal popular:


Meu cafezal em flor,
Tanta flor, meu cafezal...


Eu não sabia explicar, mas aquela melodia me feria por dentro. Já brotava em mim essa tristeza que às vezes aparece sem razão alguma de existir, que morou e mora em meu peito até hoje, sobressaltando-me nos dias frios e chuvosos.

Estremeci. A casa do Fransérgio, irmão do Totô amplo alpendre e jardim de frente. Esquina. Luz opaca. Neblina. Cortei a rua com passos rápidos. Já me encontrava frente ao casarão do dr. Baldijão Seixas. Ali, no seu interior, sempre um abajur aceso. Caprichos da dona Nenê Ewbank. Parecia-me que tudo estava em ordem, as pessoas recolhidas, as casas confortáveis e acolhedoras; muitas delas sonolentas, salas e alpendres na escuridão. E a primeira aula do dia seguinte era de Francês, com a dona Antonieta. Meu Deus, que noite! Lembrei-me de haver terminado as lições de Francês, mas não havia estudado a conjugação do verbo être. Restava-me apenas torcer para não ser chamado e passar vergonha diante da Marice Minervino, ou do Betarello, ou de qualquer outro colega de classe.

Filme? Que filme? Restavam agora poucos metros até minha casa. Senti um calor revigorante encher meu peito de criança. A neblina era muito forte. A Pharmácia Orestes já havia fechado suas portas de rolar. As janelas do sobrado também. Seu Elífio, depois a casa de Alfredo Costa e, por fim, encontrava-me no alpendre de minha casa. Apenas a luz da sala acesa. Entrei devagarinho, mas minha mãe me esperava.

Empertiguei-me. Dei a entender que tudo correra normalmente, como se aquele percurso não tivera sido o primeiro da minha vida executado sozinho. Mas olhos de mãe enxergam coisas na gente criança que nem podemos imaginar. Minha mãe foi à cozinha e preparou um belo copo de leite quente com Toddy e aveia.

Recolhi-me ao quarto. Meu irmão já dormia. Senti um gostinho de vitória pois pela primeira vez eu iria para a cama depois de meu irmão mais velho.

A dona Antonieta e a aula de Francês do dia seguinte? È claro que fui chamado para mostrar a lição no caderno e conjugar oralmente o verbo être. Tropecei apenas do passe composé . Mas pouca importância dei ao caso. Afinal, eu já ia ao cinema sozinho, à noite, no meio da semana. Depois, no recreio, meninas de um lado, nós do lado de baixo, sob o olhar temido do “seu” Júlio, o diretor, discutíamos jogo de botão, álbum de figurinhas e, é claro, Ben-Hur. Não fugi da raia. Eu era um deles, eu fazia parte da turma, e isto me fazia um bem danado.

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