Revelações: segredos que aprisionam

Por: Sônia Machiavelli

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Instada pelo texto de Luiz Felipe Pondé, sempre resvalando para o corrosivo na análise do comportamento humano, fui atrás do filme Revelações, bem avaliado pela crítica e esculhambado pelos que só valorizam o pop, se é que podemos ainda usar certos termos sem correr o risco de ataques biliosos. É por aí, aliás, que começa a história contada por Philip Roth no romance The Human Stain, traduzido no Brasil como A Marca Humana, e adaptada para a linguagem cinematográfica por Robert Benton, o diretor de Kramer x Kramer. Ficou melhor e mais coerente o título Revelações, uma exceção no rol das traduções grosseiras e apelativas dos últimos tempos.

O filme tem um quê político que o move de forma sutil e emerge logo no início da história quando o experiente e respeitado professor/reitor Coleman Silk (Anthony Hopkins) é demitido de seu cargo numa universidade americana por causa de palavra de duplo sentido proferida de forma inocente. Ao se referir a dois alunos (nunca presentes nas aulas de literatura) chamando-os de “spooks”, sinônimo de fantasmas mas também de negros, provoca um processo inquisitorial de onde sai arrasado. Não conhecia os alunos, não usara o termo de forma pejorativa, mas é execrado em nome do politicamente correto. Pano de fundo a essa situação pessoal, desenha-se o contexto americano entre a queda da União Soviética e os atentados de 11 de setembro, com o escândalo Monica Lewinski/ Bill Clinton pontuando o noticiário no meio do caminho.

Coleman, cuja mulher morre em decorrência do desgosto com a situação do marido, revolta-se e procura um escritor, Nathan Zuckerman (Gary Sinise), que vive de forma reclusa, e lhe propõe contar a história de sua demissão, o que poderia lhe render um livro interessante. Nathan responde incentivando o professor a escrever ele mesmo o livro. Nasce ali uma sincera amizade. Dela faz metáfora o roteirista colocando em cena os dois personagens a dançar a clássica Cheek to Cheeck, de Irving Berlin: “ Heaven/ I’m in Heaven...” A cena é muito bonita e poucos atores dariam conta dela com tamanha competência. Logo o espectador verá que este prólogo terno é uma abertura para a entrada em cena da jovem faxineira da universidade, Faunia Farely (Nicole Kidman), um poço de problemas e desequilíbrios onde pulsa uma sexualidade avassaladora. Ela é acossada pelo ex-marido, também perturbado, que lutou no Vietnan e a persegue por razões que só serão conhecidas no último terço do filme.

Entre conversas desveladoras com o reservado Nathan e os encontros com a selvagem Faunia, a quem define como “não o meu melhor amor, mas o meu último amor”, o velho professor sai da depressão e se reinventa. Aposta no sexo com Viagra, tornando-se amante e confidente de Faunia. Ambos se fazem relatos de um tempo que parece muito distante mas retorna com a nódoa de segredos inconfessáveis. É esse movimento em flash back, tanto da parte de um como de outra, que faz o filme avançar rumo às trágicas cenas finais. Sem pirotecnias, descortinam-se de forma impiedosa outros Colemans, outras Faunias. A surpresa de cada véu levantado dispensa qualquer apelo visual. É então que mais entendemos porque Philip Roth ganhou um Prêmio Pullitzer com seu romance: a história é tão forte e bem construída que prescinde de extraordinários recursos cênicos.

Contraponto às zonas escuras do passado dos dois amantes, cujas confissões em doses homeopáticas explicam o título e mantêm o interesse, ganha luz a força que vincula o casal a partir da tolerância e compreensão mútuas exercitadas diante de um passado que se faz na verdade muito presente. Conhecer as ressonâncias do passado de Coleman e de Faunia é também compreender como somos responsáveis pela nossa liberdade de escolha. O roteiro de Nicholas Meyer (Atração Fatal) foi fundamental para tornar isso patente e de uma maneira que elidiu o clímax. Os fatos que exibem facetas impensáveis dos personagens são mostrados aos poucos durante a jornada complicada e dolorosa dos protagonistas. E esta nos chega completa apenas nos últimos minutos, pela ação e escrita de Nathan. Sim, ele acabou aceitando a proposta para escrever sobre Coleman porque o próprio Coleman jamais conseguiria fazê-lo. Esta conclusão pode remeter alguns ao início do filme, quando o professor/reitor está falando a seus alunos sobre o herói grego Aquiles, grande guerreiro que tinha um ponto fraco no calcanhar . Todos nós temos nosso calcanhar de Aquiles. O de Coleman, mais que o de Faunia, causa impacto.

CINEASTA REVERENCIADO

Robert Benton

Unanimidade no mundo do cinema, onde os egos estão sempre inflados e reconhecer o mérito dos colegas não é atitude fácil a ser registrada, Robert Benton, 80 anos, recebeu da Academia de Hollywood homenagens especiais há três anos. Na ocasião seus colegas fizeram o elogio do homem cujo talento jamais afastou a generosidade e o acolhimento.

Sua carreira irretocável como diretor e roteirista explica o fato de ter recebido três vezes o Oscar: pelo roteiro adaptado de Bonnie and Clyde; pelo roteiro original de O show da tarde; pela direção de Kramer versus Kramer. Outras premiações importantes também enriquecem o currículo deste texano de 80 anos que dedicou sua vida a fazer filmes de boa qualidade em diferentes gêneros. Do musical onde estreou em 1966 com É um pássaro? É um avião? Não, é o Super-Homem , passando pela comédia O que é isso, doutor? (1972), pela aventura Superman (com Christopher Reeve, Marlon Brando) grande êxito de bilheteria em 1978, pelos dramas Um lugar no coração, de 1984 e Indomável, de 1994, até chegar a este esplêndido Revelações (2003), resenhado ao lado, Benton deu mostras de que parece mesmo ter nascido para fazer filmes. Todos os que assinou trazem a marca do trabalho bem executado, sem nada destoante, características do profissional que gosta do que faz.

Formado em Artes pela Universidade do Texas, foi para Nova York tentar uma pós-graduação na Universidade de Columbia, e, concluído o curso, obteve uma vaga na prestigiosa revista Esquire como assistente de diretor. Dali pulou direto para os sets, onde está há quase 60 anos.

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Título: Revelações
Diretor : Robert Benton
Origem: americana
Ano: 2003
Elenco: Anthony Hopkins, Nicole Kidman, Gary Sinise
Onde encontrar: locadoras de Franca

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