Papaulo Beija-Flor

Por: Débora Menegoti

198665

Dedicado ao meu
irmão João Paulo


O beija flor virá novamente. Lavei as mãos os pés os cabelos e os sovacos caso resolva me cheirar como flor. Enxuguei as mãos no avental florido e tento acalmar o coração.

Vai desviar seu olhar quando eu estiver tentando encontrar nele vestígios, lembranças caiadas de sorrisos infantis, de delicadezas fraternas.

Vai dizer em seu timbre forte, meu urso favorito, o que os irmãos mais novos deveriam fazer para se tornarem gente.

Vai impor respeito com seu modo de andar feito homem um pouco embrutecido pela vida.

Se pousar esses traços fortes em mim por mais de três segundos transbordará novamente aquele mar, minha mania de ser manteiga derretida, maria-mole, mulherzinha...

Minha vontade de encontrar em você agora o ‘você de antes’ em um abraço forte, forte, forte... Vai de nossos filhos aos pais dos pais de nossa Guilhermina (tão serena!).

Olho pra você e quero encontrar as migalhas daquela imensa fantasia daquele coração transbordando paixões pela vida, natureza, pelos bichos e pelos seres reais ou inventados! Queria ver o sorriso de menino levado, fazedor de arte, para acender a chama da alegria nas pessoas com pedras adormecidas no peito. O que foi nossa infância?! Tão rara, não foi?!

Você foi sempre meu guia protetor, exemplo e parâmetro de Amor, maior que tive. Pegava-me no colo, corria, brigávamos, fazíamos as pazes debaixo da mangueira... Ora cantava comigo pelas estradas da vida, ora fazia ou destruía a cabaninha, escondia seus chocolates, e eu sempre os achava! Tomávamos sorvetes incansavelmente e banho de mangueira! Rolávamos na grama macia e escorregamos milhares de vezes morro abaixo com papelão... Ensinava-me a não espantar os pássaros, os peixes, a não bolir nos ninhos, a pôr isca no anzol, a andar descalço sobre as pedras... Emprestou-me teu arco, tuas flechas... Mostrou-me esconderijos nas montanhas e no teu peito que muitas vezes servia-me de casa. Abrigo delicado.

Hoje te vejo como um muro chapiscado. Quero muito subir e ver o que há lá do outro lado.

Ponho muito açúcar em tudo... E sei que isso te enjoa...

Você sabe de tudo, guardião.

Das palavras ásperas bem dosadas de carinho, certeiras sempre, meu beija-flor. Um dia me disseste: “não fujas, Dedéia, nós te amamos muito, muito mesmo; veja ao seu redor. Pode ver?! Pode ver? Isso que dói neles é amor. Eu vou estar sempre aqui... E sua dor será sempre pior longe de quem te ama”. E de alguma forma você está sempre aqui; ardente dentro de mim como uma saudade sem cura.

Meu índio amado, sempre com seu arco, seus peixes a tiracolo, te olho com os olhos de uma criança que pela primeira vez vê seu grande herói, todas as vezes que o vejo. Em você estou em casa. Em seu colo estão as cores e as flores da paz. Meu irmão, urso, beija-flor, poeta, índio de caça e pesca... Bicho arisco do mato... Você foi um pouco irmão, pai, mãe, guardião, muito amigo. Muito abrigo. Anjo protetor.

Que este enjoo do açúcar passe logo, que não dilacere mais nossa distância. Nem roube a nossa capacidade de amar.

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