O Jaime e o pai do Jaime

Por: Luiz Cruz de Oliveira

O Jaime é pedreiro, mora na cidade de Patrocínio Paulista. Trabalhou, algum tempo, para alguns japoneses aqui de Franca, ficou famoso lá na sua terrinha. Quem tem fama, deita na cama, diziam os antigos, e o Jaime vem confirmando o adágio popular. Não deitou, mas vem tirando proveito da fama. Trabalha pouco, e mais ou menos, cobra muito, nunca faz fiado. Logo, logo estará tão rico quanto os japoneses.

Eu o conheci quando ambos prestávamos trabalho voluntário em bairro de nossa periferia. Ficamos amigos desde então, e ele presta-me serviços de quando em quando e depois de combinação custosa. Eu choro o preço alto, ele faz pequenas concessões, eu torno a chorar, mas acabo me deixando explorar um pouco. No fim, acabamos por nos entender.

Semanas atrás, foi a mana Cátia quem contratou os serviços do Jaime. Como tenho fama de miserável, incumbiu-me de supervisionar as obras e fazer compras e pagamentos.

Tudo corria bem até que um acontecimento corriqueiro fez o Jaime ficar extremamente nervoso e aborrecido comigo. Saímos para comprar apetrechos de hidráulica. Depois de perdermos cerca de uma hora na loja imensa e superlotada, enquanto eu pagava a despesa, esperava meu troco e reclamava do preço elevado, o Jaime carregou as sacolas até o carro, onde ficou me esperando. Eu saí da loja e rumei diretamente para o estacionamento.

Acontece que, na semana anterior, eu me submetera a uma intervenção cirúrgica, em Belo Horizonte, no intuito de preservar, ao menos, as réstias de claridade que me restam e me possibilitam locomover com certa desenvoltura. Já saíra do repouso imposto pelo médico, porém meus passos ainda vacilavam em meio à neblina.

Apesar dos pesares e dos obstáculos tantos, cheguei firme ao estacionamento. Abri a porta do carro, sentei-me no banco do passageiro. Como minha audição está bastante aguçada, ouvi nitidamente o diálogo entre um estranho e o Jaime.

- Ei, ei... desça daí... Ei, ei, tira o seu pai de lá...

- Que que é isso, Sô Luiz? Que que o senhor tá fazendo?...Nao é meu pai, não...

O Jaime abriu a porta do carro, saiu me arrastando. Os puxões me disseram que eu havia entrado no carro errado. Enquanto entrávamos no carro do pedreiro, escutávamos as advertências indignadas, os xingamentos:

- Vê se toma conta do seu pai...

A voz do Jaime soou baixinha, mas igual a massa de cimento seca.

- Tá vendo o que que o senhor fez? Tá vendo?

- Não tenho culpa, nenhuma. Esses carros são tudo da mesma cor.

- Mesma cor? Que é isso? O senhor entrou num carro preto... o meu carro é vermelho, não está vendo? O homem ficou uma arara, me ofendeu... Falou até palavrão...

- Eu nem prestei atenção... eu não tinha nada a ver com isso... Ele estava xingando era o seu pai... não era o meu.

Dei de ombros e nem via o Jaime bufando a meu lado. Só escutava ele falando sozinho e descontando nos motoristas, buzinando, dando fechadas nos motoqueiros.

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