O professor

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Sua voz era suave, profunda, falava vagarosamente e ouvia pouco. Convivia com um zumbido constante no ouvido que o atormentava e variava de intensidade conforme o tempo, lugar, atividade e outros fatores. Tinha sonolência durante o dia, devido às noites mal dormidas provenientes deste desconforto, mas isto não o impedia de dar aulas na faculdade e aprimorar seus estudos. Quando se sentia melhor lia e escrevia intensamente. Procurou um lugar mais isolado para morar, instalando-se com sua família em uma chácara aprazível, toda cercada de pés de eucaliptos, não muito antigos, mas altos e finos como ele, que dava a impressão de mal se sustentar em pé. Sua figura era delgada, cabelos ruivos, volumosos, trabalhados em trancinhas finas, caindo até os ombros. O rosto vermelho era magro, como todo o corpo, olhos fundos com olheiras, nariz grande, lábios grossos, dentes irregulares. A barba era comprida, semibranca, em formato de cavanhaque. Seus membros eram longos e os afilados dedos da mão deixavam transparecer os ossos. Embora não fosse tão velho, apoiava-se em uma bengala para firmar o andar trôpego.

Quem não o conhecia, jamais poderia imaginar que por trás daquela aparência frágil e exótica, existisse um homem culto e sofisticado, a começar pela matéria em que era versado: literatura francesa. Dominava a língua de Racine com perfeição, conhecia toda a história da França, obras e feitos de seus filhos ilustres. Viajara muitas vezes para lá, sendo apaixonado por Paris, centro de beleza, poder e elegância, vitrine da cultura francesa. Quando o conheci, não dava mais aulas, apenas orientava mestrandos em suas teses. Estes passavam horas em sua companhia apesar de sua audição restrita. Suas palavras eram sábias e cheias de discernimento. Escrevera vários livros e, nas solenes noites de lançamento, usando seu paletó já gasto pelos anos, era prestigiado por muitas pessoas que o admiravam pelo seu interior, sua capacidade e erudição. Neste plano não existia discriminação, nem olhares curiosos ou críticos em relação à sua imagem, pois o que resplandecia era sua alma, seu espírito privilegiado, seu relacionamento com as pessoas. Ninguém se importava com seu aspecto exterior. Aparência padronizada diante de tanta grandeza, para quê?

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras