Chá da morte

Por: Maria Luiza Salomão

Li em uma revista CULT, meses atrás, que algumas pessoas se reuniram para criar um espaço de conversas sobre a Morte, regado a chá e docinhos (café também, eu imagino, para um vigoroso acordar).

Há quem acredite que a Morte pode ser exorcizada, magicamente, se calarmos a seu respeito (como quem proíbe falar no nome do Diabo, sob pena de ele surgir do Nada).

Lamentei ter sabido do Chá tarde demais. Queria ter ido ao evento.

Em um Chá com tal tema (em evento aberto ao público) pressupõe-se encontrar mórbidos, ou obsessivos, ou...sei mais o quê. A verdade é que, seja qual for o tema da conversa - Sexo ou Música, Cosmética ou Escalada aos Andes, Poesia ou necessidade de reformar a casa -calhamos de encontrar gentes de variadas tribos, com ideias e hábitos considerados tétricos (patogênicos para uns, naturais para outros). Em uma corporação carioca de bombeiros li a frase, de Terêncio, filósofo da antiguidade: ‘nada do que é humano me é estranho.’ (Freud a citou em um artigo). Acontece que verificamos a existência de uma fronteira móvel, na saúde e na doença, na razão e na loucura (não uma linha precisa, lógica). Edgar Morin, antropólogo, filósofo e sociólogo francês, integra o Homo Sapiens (sábio) ao Homo Demens (louco). Não é de se espantar. Winnicott, psicanalista britânico, disse, ao observar a multiplicidade de sintomas que os seres apresentam, de bebê à idade madura: ‘é pobre aquele que é somente sadio’. Caminhamos em corda bamba, do nascimento à morte.

Sabendo que a Morte é a nossa única certeza, por que não conversarmos sobre a derradeira experiência humana? Falar sobre a Inelutável nos torna vivíssimos. Quando o silêncio é extremo e o gesto, em nós, se petrifica, não há palavra, sentimento, a possibilidade de pensar.

Pensar na Morte, nos faz sopesar o que é vital e nos fortalece para confrontar as graves banalizações que campeiam (ervas daninhas) o desenvolvimento espiritual, físico e emocional na breve passagem pela Terra. Um Chá da Morte pode ser tônico, um remédio para os que tentam adocicar a vida com venenos socialmente aceitos (politicamente corretos). São venenos: Bajulações; Hipocrisias; Anestésicos (fúteis) contra a Velhice, ou contra Instintos humanos poderosos (sexo, poder, ambição desmesurada); Anestésicos inúteis (drogas) contra efeitos de Memórias complexas (Traumas, sentimentos Autodestrutivos - Inveja, Competição extremada); Obsessões incomodativas, que levam a compulsões irrefreáveis e explosivas (produzindo mulheres e homens-bomba).

Melhor um Chá da Morte do que o Chá invisível, insípido e inodoro, que se bebe sozinho, desavisada mente, e que mata, violento, aos pouquinhos...

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