Molho de chaves

Por: Everton de Paula

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No princípio até que achei interessante. Um celular. Minhas filhas insistiram, minha mulher queria que eu tivesse um (para me monitorar, é claro!), minhas duas secretárias na universidade imploraram para que eu não me desgrudasse de um. E fui a uma loja revendedora dos tais aparelhos. Uma balconista muito bonitinha que não entendia uma metáfora sequer (depois dos sessenta, você só sabe fazer contar piadas à base de metáforas) se dispôs a me atender. Mostrou vários aparelhos, demonstrou inúmeras operações, expôs um rol de qualidades e só não continuou porque lhe disse que pretendia apenas falar e ouvir, nada mais. Ela me olhou como se eu fosse um troglodita das cavernas pré-histórias. Daí passou a falar de preços e não mais de funções. Ri por dentro: agora ela pesquisava minha capacidade de compra. Fiz-me de despercebido, comprei um aparelho, inseriram um chip de tal operadora e pronto.

Passei a andar com o celular no bolso. Chegava ao meu gabinete e o depositava sobre a mesa. E então começava o inferno; parecia que todas as pessoas a quem eu passara o número do tal celular queriam falar alguma coisa comigo: a esposa me lembrando de passar no supermercado, o banco X me oferecendo cartão de crédito, o banco Y me oferecendo empréstimo consignado de aposentado, a seguradora ofertando apólices, dois bipes me informando haver mensagens escritas ou faladas, novamente a esposa perguntando que horas eu iria chegar a casa, o mecânico explicando em detalhes a pane havida no motor de meu carro, o amigo me convidando para um bolão na mega-sena, a santa esposa me informando que o alarme de seu carro disparara e que não sabia como fazer para cessar aquela barulheira infernal, a agência de viagens ofertando uma excursão para Cancún... Mude um pouco a ordem e a natureza das chamadas, isto era quase todo dia, manhã e tarde.

Um outro detalhe me incomodava bastante: eu havia perdido a minha opção de estar sozinho em algum lugar, ou tranquilo no serviço, ou atento no trânsito. O celular parecia uma câmera que me filmava onde estivesse, porque todo mundo sabia como me encontrar. Perdi minha privacidade.

Ora, houve uma época que em tempo de chuvas eu levava meu guarda-chuva comigo. Um estrambolho. Deixei-o de lado. Antes molhar um pouco o cocoruto que andar com aquele urubu móvel que a gente sempre acaba esquecendo em algum lugar. Se eu aposentei de vez meu guarda-chuva, por que não poderia fazer o mesmo com o celular?

Fi-lo. (Gostou? Reminiscências do Jânio Quadros). Guardei-o no fundo da gaveta do criado mudo. Desligadíssimo. E pude então reexperimentar a paz da privacidade. Nenhum chamado, nenhuma identificação, nada que denunciasse o meu paradeiro. Até hoje ando sem celular, e nada de vital importância aconteceu comigo. Comigo e com o mundo. Continua amanhecendo, entardecendo e anoitecendo normalmente. O trânsito flui, as pessoas se alimentam, chove em dias nublados, os postos de saúde funcionam, nenhum canal de televisão ficou fora do ar, os aviões andam cumprindo suas rotas, a violência urbana não diminui e o PT continua no poder, para a felicidade orgástica de seus militantes mais fanáticos que os corinthianos, o Lula permanece com a memória fraca... Continuo atendendo minha esposa nas suas aflições domésticas, quando quero vou ao banco, faço seguros apenas se me interessam e viajo só quando me dá na telha.

Sou um homem feliz e leve aposentei meu celular e meu guarda-chuva.

Inteiramente feliz?

Não, porque ainda existe algo impossível de aposentar, algo que faz parte da vida do homem civilizado, mais importante que a própria roupa do corpo: o molho de chaves.

Sem as chaves você não é absolutamente nada.

Por mais simples que seja a sua vida, provavelmente você carrega algumas chaves. Ainda que todas as posses de um indivíduo se resumam a uma só mala num quarto de pensão, ele tem de carregar as chaves da mala, do quarto e da porta da rua.As chaves são o preço que pagamos pela civilização. No chaveiro que você traz, cada chave é um símbolo de aborrecimento em potencial; representa responsabilidade, encaixa-se numa fechadura de alguma coisa que lhe toma muita atenção. Cada coisa que você se sente obrigado a fechar significa uma preocupação a mais: a casa, o carro, a caixa postal, a porta do escritório, o cadeado do portão de fora... E a inevitável pergunta que não se cala nunca: “Meu Deus, será que tranquei a porta da sala?” Isto ocorre quando você está a quilômetros de distância da tal porta. E na fila do banco, o carro estacionado bem distante, perto de uns rapazes mal-encarados e um flanelinha insistente, você olha para o chaveiro e logo se pergunta: “Será que liguei o alarme?”

E depois há os inevitáveis esquecimentos e, para o horror dos horrores, algumas perdas: a do próprio molho de chaves, por exemplo. Você já observou uma pessoa quando percebe que sumiu o seu molho de chaves? Na primeira vez, ele se refaz do susto. Na segunda vez, já entra em pânico. Na terceira, passa a tomar remédios tarja preta. Escolha ao acaso dez homens, procure em seus rostos as rugas cavadas pelas preocupações, depois conte o número de chaves que carregam. Existem grandes possibilidades de que o homem com mais chaves tenha a expressão mais preocupada. Já dispensei meu celular e meu guarda-chuva. A minha vida ficou mais leve. Mas não consigo me desprender do meu molho de chaves. Impossível viver hoje sem elas.

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