Surpreendente

Por: Luiz Cruz de Oliveira

A gente escreve e publica livros, tentando construir literatura para adultos, para leitores já formados. De repente, um susto: crianças batem à porta:

— A professora mandou fazer entrevista com o senhor.

Não há saída. O jeito é esconder a contrariedade e pacientemente responder a perguntas inocentes que não foram elaboradas pelos inocentes que nos encaram de olhos arregalados.

— O senhor pode resumir numa palavra as características de sua obra?

Quando não são as crianças são alguns estagiários da mídia. Chegam inseguros, não leram nossos livros, não distinguem gêneros literários. Começam quase sempre assim:

— Há quanto tempo o senhor é poeta? Pode resumir numa ou duas palavras a mensagem que o senhor deseja levar ao público?

A lembrança de tais absurdos me retornou à mente e me perguntei, olhando a capa do livro de contos à minha frente:

— Dentre as múltiplas impressões que me causaram estes Oitocentos e sete dias, da Vanessa Maranha, qual foi a mais profunda?

A resposta veio de bate-pronto:

— A surpresa.

De fato, ainda agora, sinto que o livro de minha amiga me é, sob todos os ângulos de análise, altamente surpreendente.

Debruço-me sobre a forma utilizada e me surpreendo. Depois de palmilhar as primeiras sendas da literatura, a mulher detém já estilo ímpar. Sua linguagem me lembra parentesco, distante mas parentesco com a de Guimarães Rosa . É marcada por frases nominais e períodos quebrados, construções inusitadas e vocabulário que revelam domínio pleno da ferramenta de trabalho do escritor. O resultado chega ao primor como no conto Peter e Claire.

Surpreendente, sobretudo, é o livro quando analisado sob o aspecto de seu conteúdo.

Confesso que eu não soube enquadrar o conjunto de contos nos conceitos adquiridos ao longo dos meus estudos. Assim, deduzo interpretativamente: o brutal, o grotesco, o fantástico, o surreal que permeiam as narrativas caracterizam talvez o que, hoje, chamam de cruísmo. No meu entender, no caso de Vanessa, trata-se de uma espécie de reinvenção do Naturalismo um naturalismo moderno, enxuto, seco, impiedoso, como as engrenagens do mundo contemporâneo.

Pode ser falha a minha análise. Vejo, no entanto, nas narrativas, uma forma de estudo de aspectos patológicos do ser humano.

Tais patologias, motivadas por primários instintos, aparentemente domados (sexo, fome, sobrevivência), trazem à tona conflitos e uma solidão bruta que dilacera como faca de açougueiro.

A meu ver, isso é uma espécie de naturalismo que, com palavras, autopsia corpos e almas, com crueza e profissionalismo de especialista.

Surpreendente.

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