O porteiro do paraíso

Por: Paulo Rubens Gimenes

Em 1980, para a nossa turma de adolescentes da Estação, ninguém era mais temido e respeitado que o Pimenta. Não, Pimenta não era um “doutor delegado”, tampouco era um marginal. Pimenta era o porteiro dos bailes da AEC.

Sendo assim, estava sempre entre nós e o Paraíso. Paraíso esse feito de luzes negras, som do “Edinho Show Santa Cruz”, “Banda do Brejo” ou “Placa Luminosa”, sedutores “Hi Fi” ou “Gim Tônica” e repleto de belos anjos garotas lindas e limpas que admirávamos à distância de nossa miserável e terrestre condição de adolescentes. Alheias aos nossos olhares, interessavam-se mais por companhias de homens maduros, na faixa dos 18 anos (?!).

E era sempre assim, em todo Baile da AEC, lá estava o Pimenta guardando as portas do Paraíso. Como quase sempre não tínhamos dinheiro para o ingresso apelávamos para a misericórdia de amigos mais “remediados”, sócios do clube e com entrada gratuita nos bailes, que nos emprestavam suas carteirinhas, sorrateiramente passadas pelo banheiro térreo do salão quando os mesmos já haviam entrado.

O que se seguia depois era um misto de tensão e medo, tentar ficar “parecido” com a foto do amigo e partir seguro pra encarar o Pimenta; este, não sei se por vista ruim ou coração bom, cansava-se de ver a mesma carteirinha servir de passagem para aquelas “promessas” de galãs ainda impúberes e às vezes com camisas sociais maiores que seus manequins, desajustadas e sobrando em mirrados corpos.

Mas, às vezes, tomado pelo cumprimento de seu duro dever, Pimenta nos barrava, retinha a carteirinha de nosso solícito amigo que agora seria suspenso e teria o pai convocado para uma temida reunião de diretoria, enquanto nós, singelos trapaceiros pegos em flagrante, ficávamos “sem graça”, tristes, encostados nos carros em frente ao clube sonhando com o baile e seus atributos paradisíacos que se desenrolavam ao fim daquela rampa guardada a sete chaves pelo São Pedro das Três Colinas.

Muito tempo (e muita coisa) se passou, o salão da AEC no Centro hoje é uma loja de materiais escolares, aquelas bandas não tocam mais por essas bandas, belas jovens an gelicais voaram pelo céu do tempo eaterrissaram senhoras, cabelos e pelos cresceram, grisaram e caíram daqueles adolescentes, os “índios” já não brigam mais com os “pós-de-arroz” e o “Hi Fi” hoje é mais fanta que vodka.

Às vezes vejo o Pimenta pelas ruas de Franca, não sei o que ele faz, mas pra mim continua sendo o porteiro, temido e reverenciado, que guarda as chaves de um passado dourado, ao qual adentro todas as vezes que vejo essa querida pessoa.

Obrigado,Pimenta, e desculpe todas as “pentelhações” de adolescente.

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