Sombrinhas

Por: Janaina Leão

Tenho um enorme apego a sombrinhas. Gosto de usá-las também como bengala e todo os dias saio, mesmo com o sol a pino, a cutucar os lugares, sentindo a densidade das coisas concretas, das coisas macias e transponíveis.

Tive uma da Madonna, ah como ela era observada! Eu mal existia ali embaixo, e a chuva sempre molhava minhas pernas. Perdi no supermercado, eu acho. Separação dolorosa.

Depois dessa tive muitas: umas coloridinhas, outras sem-gracinhas”e fracas. Nenhuma tinha o brilho da Diva, nenhuma chamava atenção e, para piorar, sempre quebravam.

Até que um dia o Deus das Sombrinhas sorriu pra mim e, numa praia da Bahia, comprei uma de arco-íris! Dei umas voltas com ela, meti a ponta na areia e abri quando entramos no mar. Ao voltar para casa, disseram-me que era gay e eu-que -só- era -eu passei a deixá-la dentro do armário, sem muita culpa, pois era pequena mesmo, e deixava-me muito exposta à chuva. Num desses dias de mudança, em que tudo está de pernas para o ar, devo tê-la deixado para trás, em uma das antigas casas.

Agora estou usando uma que comprei na saída do metrô, anteontem.

Fui pega por uma chuva surpresa, daquelas de que você só se dá conta da existência quando sai debaixo da terra.

Paguei cinco reais! Baratinha e boa, não abre como coqueiro ao vento, é xadrezinho azul-alegre com preto trovão. Tem a haste firme, forte e pontiaguda, do jeito que eu gosto para cutucar as calçadas por onde eu ando. Acho que essa dura mais.

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