“Vá aonde seu coração mandar”

Por: Sônia Machiavelli

200175

Faço parte de três comunidades do Facebook. Uma delas é O que você está lendo? Ali, dia desses, a administradora do grupo, Rita Moscardini, perguntou o que levava os participantes à escolha dos livros que liam. Foi então que me dei conta de como um leitor entusiasmado pode contagiar outros. Naquele momento eu estava terminando a leitura de um livro sugerido pela editora-chefe do Comércio da Franca, Joelma Ospedal. Ao ouvi-la comentar, com brilho na voz, um título que lhe fora recomendado por outra jornalista, Patrícia Paim, não tive dúvidas, quis ler também. É sobre ele que trago hoje alguns comentários.

Vá aonde seu coração mandar ( Va dove ti porta il cuore) me surpreendeu do começo ao fim, além de me pôr em contato com a literatura italiana deste momento. Susanna Tamaro o publicou em 1995, tornando-o best-seller em seu país e muito conhecido nas várias línguas para as quais foi traduzido. Na Itália vendeu em um ano milhão e meio de exemplares, mais que João Paulo II e Umberto Ecco juntos. Ganhou a telona, com Virna Lisi como protagonista.

Para início de conversa, não sei bem em que gênero situar este pequeno grande livro: auto-ajuda? depoimento? memória? diário? romance? conto mais avantajado? novela? No primeiro momento pensei em inseri-lo numa forma, porque tenho (ainda) este péssimo hábito que herdei da vida universitária. Quis defini-lo como narrativa epistolar, mas depois percebi que seria artificial este rótulo, pois somos apresentados ao discurso de uma única missivista. Então, diria que o livro é um misto de tudo isso que listei e pode ser que derive daí o apreço do público.

Susanna Tamaro é uma Lya Luft menos cerebral e mais compassiva, ou um Paulo Coelho com domínio sobre a linguagem, embora lhe falte a competência deste na construção da intriga. A história que ela ergue no livro de que tratamos pode ser resumida em poucas frases: “avó octogenária, sentindo que seu fim se aproxima, escreve à neta, que criou e vive em outro país, depois de um rompimento traumático entre ambas”. A correspondência não postada revela um passado próximo e outro distante. Ao fazer este resgate na casa silenciosa de Trieste, a narradora promove um ajuste de contas consigo. Suas confissões mostram necessidade de clareza e verdade, pois “não podemos fugir das mentiras, das falsidades. Ou melhor, podemos fugir algum tempo, mas quando você menos espera, lá vêm elas à tona de novo.” É com considerações deste tipo, entrelaçadas na trama quase frágil e sem muito espaço para metáforas, que Tamaro, pela voz da avó, evoca questões que lindam antropologia e psicologia, suscitando no leitor reflexões sobre pertinências da nossa humanidade. Nesse movimento, traz à tona várias vezes o motivo que justifica o título, “o coração como centro do espírito, aquilo que define o que a pessoa realmente é, sua verdadeira personalidade”.

À parte a crítica pouco consistente à hipervalorização da mente, há trechos de muita sensibilidade, como este em que a protagonista relata seus primeiros anos: “respirava e sabia haver uma ordem superior das coisas de que eu fazia parte, junto com todas as demais coisas que via. E apesar de ainda não conhecer música, alguma coisa cantava dentro de mim (...) soprando com um ritmo regular e poderoso.”

Ao leitor de Clarice Lispector essas palavras podem soar familiares. Não pela forma, na escritora brasileira muito mais burilada, mas pelo fundo. É que as sensações de Olga, em Vá aonde seu coração mandar, e de Joana, em Perto do coração selvagem, ficam muito próximas. O professor Dante Marcello Claramonte Gallian diz com propriedade que ambas as personagens “evocam a grande experiência, ao mesmo tempo mística e física, difícil, em suma, da revelação da personalidade profunda na trama complexa e contraditória da vida”.

Na batalha entre personalidade e caráter, entre as exigências do coração e as do mundo, Olga opta pelo coração. Por isso, na última carta, a que arremata o livro, escreve à neta: “quando se abrirem vários caminhos e você não souber qual escolher, não tome um qualquer, tenha paciência e espere. Respire com a confiante profundidade com que respirou no dia em que veio ao mundo, não deixe que coisa alguma a distraia, espere e continue esperando. Fique parada, em silêncio, e ouça seu coração. Quando enfim ele falar, levante-se e vá aonde ele a quiser levar”.

Se isso será condição de felicidade, ela não diz à neta destinatária da mensagem-legado. Mas que pelo menos pode levar a uma coerência interna que propicie alguma serenidade, parece verdadeiro.

LITERATURA ITALIANA

Susanna Tamaro

Nascida em 1957, em Trieste, cresceu com a avó materna depois da separação de seus pais. Fez magistério em sua cidade e, depois, foi para Roma onde cursou cinema. Produziu alguns documentários para a televisão. Nesse mesmo período começou a escrever contos e romances. Com a narrativa La testa fra le nuvole venceu o prêmio Elsa Morane para jovens escritores; e com o conjunto de contos Per voce sola, o Pen Club. As duas obras, elogiadas pela crítica, não conquistaram o público, o que só veio a acontecer com Va dove ti porta il cuore, o livro italiano de maior sucesso de vendas no século XX. Em seguida publicou Cara Mathilda, Famiglia Cristiana (no gênero epistolar), Ogni parola è un seme, Rispondimi, Fuori (romances).

Tipo mignon, cabelos sempre curtinhos, olhos verdes, preferência por roupas unissex, Susanna exibe ares juvenis, sem nenhuma sofisticação. Nunca enfrentou problemas financeiros e vive com conforto numa casa de campo em Orvieto, com vários cães de estimação, seus companheiros na maioria das fotos. Vai a Roma duas vezes por semana, para tratar de assuntos ligados à sua produção literária.

Registro importante: o discurso da escritora convida também, em todos os escritos, à reflexão sobre preconceitos e a considerações a respeito do estrangeiro ou estranho “não como ameaça, mas sim como interrogação a propósito de nos mesmos.” Muito lida por jovens, que dizem se reconhecer em suas páginas no que se refere à sexualidade, à política, às drogas e à religião, a escritora costuma dizer que “eles não sabem, mas têm um coração”. Sua proposta essencial é fazê-los descobrir isso.

Serviço
Título: Va dove ti porta il cuore/ Vá aonde seu coração mandar
Autora: Susanna Tamaro
Gênero: drama
Número de páginas: 136
Ano: 1995
Editora: Rocco

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras