A dor do dharma

Por: Jane Mahalem do Amaral

Ficar na zona de conforto e infeliz é mais comum do que pensamos. “Às vezes preferimos ser infelizes sem nada mudar, a mudar nossos hábitos e ir em direção a uma felicidade possível”, nos diz Jean-Yves Leloup em um de seus textos.

Fico observando, primeiramente em mim, como é difícil reconhecer algumas dores. Na literatura da tradição do Yoga encontramos a palavra dharma que possui diversos significados, mas essencialmente o dharma seria a natureza essencial do ser, o código de conduta correto que sustenta a alma, produz virtude e que mantém e preserva um ser. Todos nós vivemos o nosso dharma, cada um fazendo suas escolhas e sustentando sua conduta. Claro é que, nem sempre, vivenciamos nossa história com total responsabilidade e discernimento. Assim, o dharma vai se revelando em nós de diversas formas. Ele aparece no olhar que temos para vida, nas emoções que valorizamos, nos sentimentos e pensamentos que estruturamos e, principalmente, no corpo. As sensações dolorosas que acumulamos no corpo, aquelas tensões e contenções que carregamos conosco todo o tempo, se transformam em nódulos que são as nossas dores do dharma. Elas são formadas por sofrimentos tais como a palavra engolida com raiva, o medo que se instala em nosso coração (quantas vezes sem motivo real), o apego exagerado a tudo que é transitório e efêmero, a identificação com o passado, as expectativas infundadas para o futuro, a insegurança, a visão dualista e a rigidez e exigência, em direção ao perfeccionismo. A cada momento que estou infeliz comigo mesma, ou porque estou me achando gorda ou velha, ou porque tive medo de dar a resposta que deveria, ou porque escutei algo que me pareceu uma crítica, meu corpo se contrai, fabrica bloqueios, impede a vida de circular. Aparecem as dores nas costas, naquele ombro que não consigo mover, no pescoço que endurece, nas pernas que enrijecem.

Primeiramente médico, fisioterapias, natação, ginásticas. Todos válidos, importantes e que aliviam, mas enquanto eu não identificar essa dor da alma que escrevi no meu corpo, ela não me abandonará. O Yoga nos ajuda a fazer esse percurso, pois trabalha o corpo com uma consciência mais profunda e consegue, através das posturas, alinhar energias sutis que podem dissolver estes nódulos. Não gostaria de opor conceitos de doença e cura. A cura é um processo e não um fato consumado que só acontece depois do remédio da farmácia. Há outras formas de nos curar e entre elas está a nossa disposição de encarar de frente aquilo que nos faz mal. Mas para isso é preciso sair da zona de conforto e mudar o caminho. O que tenho visto mais frequentemente são as pessoas conviverem com suas dores, algumas vezes ignorando-as, outras vezes negando-as e, por incrível que possa parecer, até cultivando-as. Sim, às vezes, nossa resistência em abrir o olhar para compreender é tão forte que passamos a viver uma autopiedade e fazer daquela dor uma companheira de viagem. O grande inimigo passa a ser o fato de nos acostumarmos aos sintomas e, por isso, não agir sobre eles.

“Nós preferimos a segurança à felicidade. A tranquilidade exterior à aventura interior”, complementa Leloup. Nós preferimos, inconscientemente, a aceitar a dor no nosso corpo porque não queremos olhar para a dor da alma, a dor do dharma.

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