Voleios poéticos

Por: Caio Camargo

Visitou-me de repente, para minha surpresa, que o nosso relacionamento era praticamente nenhum. Cumprimentos rápidos e palavras soltas.

Sentou-se à minha frente, sem ter muito o que falar. Levantou-se da cadeira, arrastando-a. Pensei que me fosse agredir. Tirou um papel do bolso do paletó, desdobrou-o, leu-me uma poesia. Meio confusa e rimas pobres. Pediu a minha opinião. Aprovei com um balançar de cabeça, tão lentamente que poderia também ser de desaprovação. Olhou-me friamente, meteu o papel no bolso, desculpou-se e se foi, batendo a porta fortemente. Em pensamento, mandei-o para os confins.

Foi para lá ou para outro lugar distante. Desapareceu da minha vista e dele não tive mais notícias.

Retornou tempos depois, envelhecido, encurvado, quase não o reconheci. Sentou-se com dificuldade na mesma cadeira. Depois do cumprimento quase nada falou. Tornou a levantar-se de repente. Meteu a mão no bolso, tirou o mesmo papel. Dedos trêmulos. Curiosamente o papel se mantinha limpo e dobrado. E me voltou a ler, gaguejante, a mesma poesia. Tornou a pedir a minha opinião. Balancei a cabeça lentamente, num gesto de aprovação que poderia ter significado oposto.

Foi-se embora rápido, sem se despedir, lágrimas nos olhos. Soltou o papel desdobrado ao vento, que saiu flutuando, subindo e descendo, indo e vindo. Caiu junto aos meus pés. Apanhei-o. Virei-o e revirei-o. Nada escrito. Joguei-o novamente ao vento e ele flutuou no ar.

Ficou-me uma latejante pena do poeta e, mais ainda, do poema mudo e ausente que se foi, navegante, em belos voleios poéticos.

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