Lembranças

Por: Raphael Ferreira Lopes

Era inverno, a noite estava fria, e eu como de costume estava sentado me embriagando com aquela visão de um céu estrelado quando fui interrompido por um amigo.

— O que faz ai?

—Apenas observando as estrelas. Veja, todas as noites elas são guias para os viajantes, são uma pintura para os artistas, o amor para os amantes. Quando eu morrer quero me tornar uma estrela, uma daquelas ali é a mais bela.

—Não diga tanta blasfêmia, você nunca se tornará uma estrela, mesmo depois de sua morte. As estrelas são apenas estrelas. Elas brilham, brilham, e quando o sol nasce elas somem. Agora me diga, qual o sentido de brilhar a noite toda se pela manhã elas serão substituídas pela grande luz do Sol?

—De sua boca veio a resposta, brilhar a noite toda, eis o sentido. Não haveria sentido se elas brilhassem eternamente, tudo é cíclico, tudo termina para começar de novo. Qual seria o prazer de observá-las se não se escondessem para se prepararem para o show da noite? Assim somos nós, meu caro, estamos aqui, um dia acaba, o que seria da vida se ela fosse infinita? Ela deixaria de ser vida... Que dia corrido seria hoje se o amanhã não existisse.

—São bonitas palavras meu caro amigo, agora olhe para mim... O que vê?

—Oras, eu vejo você...

— Não, olha de novo, o que vê?

—Eu não sei, eu não sei o que vejo.

—Você é cego, diz coisas bonitas sobre a vida, mas é cego. É cego porque teme, você teme a morte assim como teme a vida. Você teme morrer sem poder deixar uma bela história, mas observe, ao tentar fazer isso, você está se esquecendo de viver, e está se preocupando demais com quem vai ler a sua história. Nossa história não precisa ser lida, ela apenas precisa ser construída e por nós vivida. Nisso se condensa tudo, meu caro. Nós vivemos para que tudo vire lembranças, e morreremos, nos restando novamente as lembranças, mas dessa vez como castigo, porque já não mais retornará o tempo. E agora o que vê?

—Vejo lembranças, vejo todas as lembranças boas que eu tenho de você. Era isso que queria ouvir?

—Não meu caro amigo, não era isso que eu queria ouvir. As lembranças são o que nos eternizam, elas ficarão na vida de cada ser, de todos aqueles a quem um dia adentramos os sonhos e desde então não saímos mais. Depois que partimos, ficam as lembranças, e elas nos eternizam no espectro de nossa existência. Mas, o que eu queria ouvir, o que queria que você enxergasse, é que aqui está um homem, um homem em potencial para criar muitas lembranças e delas se orgulhar mais tarde... Agora tenho que ir.

Aquele amigo deixou a bela visão das estrelas e partiu, apenas... partiu. E agora aquela conversa, já era apenas uma lembrança.

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