De menina aprendiz a aprendiz de menina: vida através do Carnaval

Por: Maria Luiza Salomão

200943

QUANDO menina eu andava de olhos arregalados pelas ruas, queria absorver o Tudo. Aninhar na alma o que via, ouvia, tocava, sentia.

Queria conhecer as gentes, viajar mundos, em uma “geografia das mentes”. Fome de conhecer o dentro das pessoas. Nada sabia de teorias psicológicas - inconsciente, conflitos, loucura. Como o bichinho geográfico que desenha a pele, queria desenhar almas (se soubesse, na época, usar essa palavra). Suspirava ao ver as cortinas das casas se fechando, pessoas partindo e chegando das rodoviárias, aeroportos, portos, as luzes acesas das casas sem muros. Olhar e adivinhar fisionomias deixava confusa a minha alma de menina - sentia paredes no olhar das pessoas, grades nas suas falas (talvez inda hoje). Filmes me abriam portões de aço para inimagináveis realidades e me assustavam, já que não diferenciava bem a ficção da realidade. Podia circular por aí, sem tutores (sem pré-escola, sem atividades extra-escola compulsórias), com liberdade: com 9 ou 10 anos ia às matinês, ao Cine Avenida, da Presidente Vargas, ao Clube dos Bagres todos os dias, da Major Nicácio até lá, a pé. Subia e descia colinas, cansada, mas livre. Os pais não tinham tempo nem carro para buscar menino. Tínhamos que nos virar, naquela infância dos meus tempos.

A música era um gostoso jeito de conhecer estrangeiros. Jazz, mambo, bolero, rumba, tango, fado, folclore italiano, russo, francês. No Brasil, muitos brasis samba, bossa nova, baião, música de viola, fandango, frevo, axé (um pouco diferente do de hoje).

Hoje, quando viajo, escuto as línguas estrangeiras como cantos idiomáticos (mesmo de um só país). Nos diálogos rápidos entre brasileiros, uma imprecisão no ouvir e uma espécie de descentramento proposital do que estou ouvindo me faz sentir o som da língua como som estrangeiro. Por instantes estou perdida na minha própria língua, portuguesa. É bom se perder em meio conhecido. Fecho os olhos para ver melhor o que já vi e o que não vi. O som que me deleita, hoje, é o do silente contato entre as gentes (adivinhar fisionomias, no passado, me deu timing para curtir silêncios). Elas me calam melhor hoje, do que quando falavam, antes.

Coisa demais para ver, ouvir, sentir? Travo. Sou, estou, mais para filtros e desapegos. Quero preservar, usando parcimoniosa mente, meus perenes plânctons, submersos. O mundo de dentro me oxigena melhor, mantém vivo o meu oceano de conquistas. Mundo e gentes demais no meu dentro. De menina aprendiz para aprendiz de menina: quero aprender a me ninar.

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