Você sabe contar anedotas?

Por: Everton de Paula

Está aí uma arte que poucas pessoas dominam. Por vezes, a anedota é, em si, engraçadíssima, mas dependendo de quem a conta, torna-se não apenas incompreensível, mas também muito sem graça. O contrário é verdadeiro: uma história sem-graça pode tornar-se hilariante se narrada por quem tem o dom de fazer rir.

Aprecio uma boa anedota, não a escrita, mas a narrada, interpretada, com expressões fisionômicas e gestos que dão vida às personagens e casos.

Gosto muito de analisar essas situações. Certa vez, numa mesa de bar, estávamos os amigos sentados, bebericando e petiscando, rindo de qualquer coisa dita. Ambiente de completa descontração. A coisa fluía até que um dos amigos disse:

- Vocês conhecem aquela do papagaio caolho?

Todos param, fazem não com a cabeça, se ajeitam na cadeira e aguardam uma boa anedota. E o sujeito continua:

- Tinha um cara que era dono de um papagaio caolho. Aí o cara estava lamentado que sua vida era uma m..., nada dava certo, faltava-lhe dinheiro para tudo. E o papagaio ali, firme, escutando, com um olho na sardinha e outro no gato, vesgo de tudo. E o cara se lamuriando, até que o papagaio se encheu daquela chorumela e disse: Ô meu, eu sei como resolver o X da questão é só encontrar o X do mapa do tesouro ... Há, há, há, há, há!!!

Esse “há,há,há” era a risada solitária de quem havia acabado de narrar a idiotice. Ninguém riu. Pelo contrário, houve um constrangimento geral na mesa. O que havia de engraçado naquela história? Não teria sido melhor ficar calado e deixar que o ambiente continuasse fluindo como estava desde o início?

Penso que para contar uma anedota, é preciso que o narrador seja possuidor de uma série de dons: timbre, entonação de voz, gestos, suspenses, lances de mãos, abrir e fechar os olhos... Coisas assim. E, pelo amor de Deus, que a história tenha nexo!

Definitivamente, eu não sei contar piadas. Às vezes imagino apenas o início. Aliás, eu tenho excelentes inícios de piadas, aqueles inícios que estimulam o ouvinte a imaginar o final... E já começam a rir, desde o início.

Vejam: era uma vez um cara gago que tinha de explicar ao médico um incômodo que o acompanhava há anos: as hemorróidas. Sucede que o médico era surdo, então o gago, além de gaguejar, tinha de fazer gestos...

Pronto, está aí um início de anedota que sugere um final explosivo. Mas não consigo imaginar que final é este. Fico apenas no começo. Não sei dar continuidade. Mas que o começo foi bom, ah, isso foi!

Simplicidade. Está aí um dos segredos da anedota. Contaram-me uma inteligente, que nos faz pensar sobre procedimentos de psiquiatras e psicólogos. Um senhor visitou um psiquiatra e queixou-se de que havia um jacaré embaixo de sua cama. O psiquiatra lhe disse que esta fantasia merecia anos de terapia, quatro sessões por semana. Uma nota preta! O senhor sumiu do consultório, o que intrigou o psiquiatra. Passados alguns dias, o psiquiatra encontrou o senhor e lhe perguntou: Escute, você tinha uma fantasia grave sobre jacarés. E não voltou mais ao meu divã. O que aconteceu? E o senhor lhe respondeu: Conversei com um amigo meu, alfaiate de profissão. E ele resolveu meu problema de graça, e de uma vez só.

Mas como?, perguntou o psiquiatra. Fácil, fácil, disse o cara do jacaré ele mandou eu cortar as pernas da cama.

Se não faz rir, faz pensar. Gosto de anedotas assim. Ao jeito próprio de Wood Allen.

Mas não sei contá-las.

Aí, pensando nisso, resolvi reler minhas últimas crônicas publicadas neste canto: quanta filosofia, quanta melancolia, quanto pensamento, quanta saudade, quanta ansiedade. E olhe que tenho encontrado um número considerável de leitores que chegam a mim, sérios, circunspectos, macambúzios, casmurros, e dizem com um tom de voz respeitoso e cerimonioso, um tom grave: Professor, li seu último artigo. Muito bom!

Parecem condolências, como se alguém dissesse Meus pêsames, meu caro amigo. Tenha a certeza de que compartilho sua dor e incompetência em fazer rir...

Leio sempre meus companheiros desta página, que muitas vezes narram casos tão alegres, tão divertidos. Imagino seus leitores cumprimentando-os, com um sorriso largo, aberto, franco, com tapinhas nas costas. Uma alegria geral!

Ando procurando na internet cursos sobre como contar anedotas. Leio-as em revistas. Mas não tem jeito. Fico só no começo.

Não sei expressar a alegria que ainda resiste em se fixar nalgum canto de meu interior. Não sei administrar situações de contentamento de alegria. Perco o jeito nas festas, nos grandes acontecimentos. Mas se me perguntarem sobre minhas dores, paixões, ansiedades, questionamentos existenciais, idiossincrasias enfim, ou minha opinião sobre a angústia humana, sobre a desesperança, sobre os que sofrem, sobre as injustiças e opressões, seria capaz de gastar horas falando. E, pelo que tenho observado em minhas palestras recentes, conquistaria o ouvinte.

O que se passa?

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