Livro tem cardápio imprevisível

Por: Sônia Machiavelli

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Quando adentro livraria deixo relógio lá fora. Se ela for grande e acolhedora como uma das Livrarias da Vila, em São Paulo, posso ficar tempão sem sentir cansaço nas pernas, mal que costuma me acometer se fico de pé por muitas horas. As livrarias me permitem encontros que oxigenam o espírito e por aí a carne também se alforria. Alguns achados são fantásticos. Outros, surpreendentes. Poucos tão excêntricos como A Miscelânea da Boa Mesa.

Há muito tempo não entrava em contato com escritor que me fizesse rir tanto como esse tal Ben Schott descoberto na seção de culinária. Estava procurando autores novos, folheando daqui e dali, quando um livrinho de capa branca, 10x18, 150 páginas, discreto e bem acabado, chamou minha atenção. Nunca tinha ouvido falar de chef, gastrônomo ou culinarista com este nome. Schott?! Vou levar, pensei, reunindo-o aos outros que já havia escolhido.

Logo que o abri fiquei intrigada. À guisa de apresentação lá estavam algumas palavras do autor sob o título A Base da Verdade: “Foi feito um esforço exaustivo para garantir a precisão de todas as informações contidas na Miscelânea. Todavia, o autor não se responsabiliza se você pedir um prato que não combine com seu feitio; beber na taça sem ser na sua vez; escorregar na oração de ação de graças; cozinhar uma quantidade absurda de macarrão; ou envenenar sua tia predileta. Como disse Carl Jung, ‘os erros, são, afinal de contas, as bases da verdade”.

Vi que poderia iniciar por qualquer página: quer maior autonomia concedida a um leitor? Se me desse na telha, iria direto ao final. Se achasse melhor manter meu método, optaria pelo começo. Ou passearia aleatoriamente pelas páginas, curtindo cada pedacinho, tabela, lista, subtítulo, fórmula , desenho ou rodapé. Pois em todos eles encontraria, adivinhei logo, matéria espirituosa para meu deleite. Afinal, o senso de humor inglês tão peculiar estava ali, inundando tudo.

Tinha então como certo que não iria ler sobre qualquer cardápio previsível. Mas não poderia supor que o menu oferecesse tamanha abundância desses supérfluos que tantas vezes saciam nosso coração sedento de dose dupla de leveza, alimentam nossa alma faminta de prato cheio de graça. Cultura de algibeira, informações (in) úteis, fatos excêntricos, datas curiosas, personagens históricos, relatos sobre a cerimônia do chá no Japão, a rígida disposição de uma família amish à mesa de refeições, como escolher pernas de rã, transcrição do diálogo entre James Bond e Tigre Tanaka sobre a temperatura do saquê no filme Só se vive duas vezes, os alimentos permitidos e os proibidos pelas leis islâmica e judaica, os melhores lugares para se comer na Finlândia, até a definição do cheiro da fruta paquistanesa conhecida por durião, que segundo o chef Anthony Bourdain “lembra defunto desenterrado semana depois de enterrado abraçado a um grande queijo Stilton”. Estava tudo ali.

E mais: o que disse Somerset Maugham sobre a qualidade da comida inglesa, e Winston Churchill a respeito da inconveniência de compartilhar o café da manhã com sua mulher; todos os logotipos da Coca-Cola ao redor do mundo; o cardápio do banquete de aniversário de 45 anos de John Kennedy; os pratos pedidos pelos condenados à morte nos Estados Unidos; nomes de famosos fãs de charutos; o que a mais célebre escola de cozinha no mundo, a Cordon Bleu, tem a ver com cavalaria; quais flores são comestíveis; como se deu o suicídio de Vatel; a etimologia do vinho clarete e da palavra gula; o jeito certo de afiar uma faca; como se faz um brinde em diferentes idiomas... O Brasil entra com três verbetes, se é que podemos chamar assim tais informações : o cardápio do baile da Ilha Fiscal, os sabores exóticos da sorveteria carioca Mil Frutas, e as características do siri mole e da caipirinha. Por aí se adensam as páginas que desvelam o minucioso pesquisador, buscando nas minudências matéria para breves e irônicos comentários.

E receita, pra valer, será que tem? É uma pergunta que se pode fazer o leitor. Pois saiba que sim. Além de alguns coquetéis básicos, pode-se aprender a fazer a poção das bruxas de Macbeth e a assar um cisne como se estivéssemos no século XV.

Difícil analisar este livro, classificá-lo, encaixá-lo num gênero. Talvez seja um tataraneto dos antigos almanaques, que traziam informações diversas para o leitor de um tempo que ficou para trás, mas deixou legado do qual o autor se apropria, conferindo-lhe traços de humor e pós-modernidade. Muito bom. Cinco estrelas.

TUDO JUNTO E MISTURADO

Ben Schott

Miscelânea é palavra que assumiu cunho pejorativo, mas até o século XIX sua origem tinha relação com textos variados reunidos numa mesma obra. Por este viés, os três títulos que enfeixam até agora a obra de Schott foram muito bem escolhidos ao perfilarem um gênero ainda sem nome. São três as Miscelâneas que alcançaram grande sucesso na Inglaterra e nos Estados Unidos, venderam mais de dois milhões de cópias, foram traduzidas para oito idiomas.

A primeira delas, a Miscelânea Original de Schott, publicada em 2002, saiu de maneira tímida, mas foi saudada logo depois no Guardian, por Stuart Jeffries, que considerou o livrinho “sensação editorial do ano”. Coleção de trivialidades, elenca desde comprimentos de cadarços de sapato às peculiaridades da Arca de Noé. O elogio de Jeffries levou a primeira Miscelânea ao ranking dos mais vendidos, onde permaneceu durante meses.

Em 2005 foi lançada a Miscelânea Almanaque Schott, mais ampla que a primeira e com conteúdos diferentes de acordo com a cultura local, em seções sobre música, filmes, livros, celebridades, política. O Sunday Times chamou o livro de “barômetro social de valor histórico genuíno”.

Sobre A Miscelânea da Boa Mesa, um dos diretores da prestigiada Bloomsbury , Nigel Newton, disse ter-se surpreendido por receber pelos Correios “trabalho de originalidade tão marcante’.

Ben Schott é inglês, nascido em 1974, com formação em jornalismo e fotografia. Tornou-se conhecido ao fotografar figuras públicas sob ângulos irreverentes. Ele edita todos os seus livros, anotando-os para especificar as ferramentas de design utilizadas. Reconheceu recentemente a influência de Edward Tufle. (SM)

SERVIÇO
Título: A Miscelânea da Boa Mesa
Autor: Ben Schott
Tradução: Adalgisa Campos da silva
Lançamento: 2006
Editora: Intrínseca
Preço: R$ 34,90

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