A dívida

Por: Luiz Cruz de Oliveira

200948

O homem sai do Banco do Brasil, caminha pela Rua Major Claudiano, rumo à praça central. Acaba de transpor a esquina da Travessa Archetti quando ouve o chamado às suas costas.

- Moço, ei moço!

Sequer torna a cabeça.O chamado não pode ser para ele, vez que a mocidade há muito se esvaiu em esquinas, ruas e becos da cidade e da vida repleta de encruzilhadas.

- Moço...

Quando a mão lhe toca o ombro, volta-se tenso, encara o rapaz que o olha candidamente.

- Que foi?

- Desculpa. Eu não queria assustar. Eu chamei, mas o senhor não escutou.

- O rapaz quer falar comigo?

- Quero, quero sim. Desculpa, eu não quero nada não. Quer dizer, eu quero é agradecer o senhor.

- Agradecer? Agradecer o quê?

- Ah, o senhor não está me conhecendo...Ah, desculpa, é claro que o senhor não lembra de mim.. Faz muito tempo, eu era um menino.

O homem arqueia as sobrancelhas, abre muito os olhos.

- Eu deveria conhecer o jovem?

- É.. quer dizer... não, eu é que reconheci o senhor.

- Meu jovem, acho melhor você se explicar. Assim a nossa comunicação está difícil.

- O senhor fez um favor grande pro meu avô. Faz tempo, de certo o senhor já esqueceu.. Mas o meu avô nunca esqueceu... Ele cansou de andar pelas ruas daqui do centro, querendo encontrar o senhor. Ele não sabia seu nome, aí era difícil, ele nunca achou o senhor. Eu também procurei muito. Eu garanti pra ele que um dia eu ia encontrar o senhor, ia devolver o dinheiro.

- Dinheiro?

- É, deixa eu lembrar o senhor. Vou falar como foi.

E o rapaz conta aos desmemoriados cabelos brancos a ocorrência verificada há muitos anos, cujos detalhes ele guardou e revela agora.

O avô era homem de atitudes estranhas. Quando o neto fez aniversário, recebeu presente inusitado: ir pela primeira vez a restaurante chique, almoçar e tomar sorvete. Foram à AEC Associação dos Empregados no Comércio de Franca. Depois de comer filé mignon com fritas, puseram diante do aniversariante uma enorme taça de sorvete com banana.

- Que delícia!

Que desespero, que confusão, quando o homem vestido de paletó preto, usando gravata borboleta, trouxe a conta.

- O vovô tinha esquecido a carteira, e ninguém acreditou nele. Queriam chamar a polícia, prender a gente.

- E então?

- Então o senhor ficou com dó do vovô e pagou a conta.

- Eu? Eu paguei, é?

- É. Foi o senhor que pagou.

- Meu jovem, não me lembro disso, não. Será que você não está me confundindo com outra pessoa?

- Não estou não. O senhor pode ter esquecido, mas o vovô nunca esqueceu. Cansou de andar por tudo que é canto, querendo encontrar o senhor. Ele queria devolver o dinheiro.

- E cadê o seu avô?

- Ele morreu. Mas eu prometi pra ele que um dia eu ia encontrar o senhor. Agora eu quero fazer a mesma coisa que o senhor fez: quero pagar um almoço pro senhor. Almoço com sorvete, com doce.... Eu vou pagar tudo.

- Meu jovem, qual é mesmo a sua graça?

- Graça? Que graça?

- O seu nome. Como é o seu nome?

- Ah, o meu nome é João Pires.

- Muito bem, senhor João Pires. O que que você faz?

- Eu sou comerciário. Vendo sapato numa loja aqui pertinho.

- Bom, muito bom. Vamos fazer assim: você pega o dinheiro e dê para alguém que esteja precisando.... Faça isso, meu rapaz, e eu já me sentirei ressarcido, já me considerarei até almoçado. Ficamos combinados assim?

- Mas...

Não tem mas. Agora eu preciso ir. Adeus, jovem. Eu moro longe, depois da linha da Mogiana..

João Pires, meio abobalhado, encosta-se à parede, vê o chapéu branco, o terno branco, a gravata escura se perderem em meio às pessoas que entulham a calçada. Depois, segue na mesma direção, atravessa duas praças, entra no Restaurante Amarelinho, almoça, retorna ao trabalho.

Sente-se aliviado, a alma leve.

Alegre, quase feliz, atende dezenas de clientes. Meio aéreo, ao encerrar o expediente, embarca no coletivo, faz viagem longa até seu bairro.

À noite, no sonho bom, a bengala do velho musica toc-toc na calçada e o avô constrói para João Pires uma pipa enorme, parecendo um arco-íris.

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