Na casa do Major

Por: Chiachiri Filho

O Major Elias Mota, um dos pioneiros da indústria coureiro-calçadista de Franca, morava na Rua Couto de Magalhães, quase na esquina com a Rua Marechal Deodoro. Conheci-o já idoso. Era alto, magro, careca, simpático e educado. Gostava de ficar em sua cadeira de balanço, fumando o seu cigarrinho de palha no qual adaptava uma piteira de bambu. Cuspia numa escarradeira colocada ao pé da cadeira de palhinha. O Major era ( como na época se denominava) um capitalista: vivia dos juros e dos alugueres. Era um homem que sabia dar valor ao dinheiro. Casado com Dona Ana, o casal teve um único filho, o Elias de Oliveira Mota.

Na casa do Major, participei de algumas festas inesquecíveis por ocasião do natalício do Motinha. Ao invés de salgadinhos, serviam bolos e biscoitos. Em vez de refrigerantes, serviam cafezinho. Os bolos e biscoitos eram os mais variados: pães-de-queijo, biscoitos de polvilho de todas as espécies, broas de fubá, bolachinhas etc. O café era de primeira: quente e saboroso. Sobre uma toalha imaculada, os pratos eram postos para que os comensais se servissem à vontade. Como biscoitos não enchem barriga, eu me fartava com aquelas delícias. Todas as quitandas eram feitas por Don’ Ana num forno à lenha existente em sua cozinha. Don’Ana era extremamente habilidosa. Tudo em que ela punha a mão saía bem feito. O tempero era impecável, os assados não passavam do ponto, os bolos eram fofos e crescidos. Tudo era perfeito e limpo. Sua casa cheirava à limpeza. Magrinha, de movimentos suaves, voz baixa e cativante, Don’Ana sabia agradar os convivas com suas conversas e seus quitutes.

Jamais eu poderia esquecer-me dos aniversários do Motinha. Lembro-me com saudades daquela casa à Rua Couto de Magalhães, dos donos da casa e dos biscoitos, bolachas, bolos e cafezinho inigualáveis de Don’Ana de Oliveira Mota. Nunca, nunca mesmo, eu encontrei uma mesa tão farta, tão apetitosa e tão bem posta.

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