Faltou a senha

Por: Luiz Cruz de Oliveira

-Eu preciso criar vergonha na cara e mudar daqui. Aqui em Franca só tem credor. É gente batendo na porta o dia inteiro, tocando interfone, telefonando até de noite. Não respeitam nem o sossego da gente... todo mundo só pensa em receber, receber...
Essas e considerações que tais ocupam a mente do homem de meia idade que entra na agência bancária, por volta das oito horas, e se posta diante de um dos caixas eletrônicos. Aperta teclas com agilidade de datilógrafo e, num instante, a máquina expele papelzinho identificando os saldos do correntista. O extrato não traz novidade: a poupança está zerada, e o saldo, na conta corrente, permanece vergonhosamente no vermelho.

Com raiva do banco, e da cidade, e dos credores impacientes, o homem se dispõe a sair, quando percebe as dificuldades de uma senhora, ao enfrentar a parafernália eletrônica. Vê, de longe, que ela aperta teclas, resmunga, faz novas tentativas que só produzem sinais de fracasso e frustração em seu rosto enrugado. A esta hora da manhã, não há funcionários da instituição bancária a postos, a quem a mulher pudesse recorrer.

Condoído, o homem se aproxima da idosa e oferece seus préstimos.

- Posso ajudá-la?

- Não, não pode não. O rádio falou pra gente não aceitar ajuda de estranho. Ele pode roubar tudo da gente.

- É verdade, é preciso ser precavido. Mas eu só quero ajudar. A senhora não precisa revelar sua senha.

- Então, tá. Eu quero pegar um pouco de dinheiro. Eu quero dar um presente para minha netinha. Hoje é aniversário dela.

- Ah, sei. Pode introduzir o cartão na máquina. Aqui.

- Isso eu já fiz... Mas ele não quer entrar.

- Deixa eu ver... Não, não. A senhora está com o cartão errado. Esse aqui é só pra aposentado andar de ônibus sem pagar.

- Isso eu já sabia.

- Então, pegue o outro.

- Que outro?

- O cartão do banco.

- Eu tenho só esse aqui.

- Como? A senhora não tem conta aqui no banco?

- Sei lá... que que é isso? Eu só tenho esse cartão aqui.

- Só esse aí?

- Só.

- Então a senhora não vai poder sacar dinheiro não.

- Não?

Não.

- Que pena!

- A senhora falou que queria dinheiro pra comprar um presente pra sua netinha. De quanto é que a senhora precisa?

- E eu sei lá?

- A senhora queria comprar o quê?

- Eu queria dar uma máquina de lavar roupa ou então uma televisão pra ela.

- Máquina de lavar? Pra sua netinha? Quantos anos ela tem?

- Uns quarenta anos... ela já tem três filhos.

-Ah, sei. Eu sinto muito, mas hoje a senhora não vai dar presente pra ela não.

- Por que não?

- Está faltando a senha no seu cartão. A senhora faz assim: vai lá na empresa de ônibus e manda eles colocarem a senha no seu cartão. Sem ela, não tem jeito, não sai dinheiro da máquina.

- Ah, eu vou lá agora mesmo. Muito obrigado, menino. Se não fosse feio uma viúva beijar um mocetão dentro do banco, eu até te dava um beijo. Muito obrigado.

Lépida, a mulher alcançou a porta antes do mocetão e se foi em direção ao Terminal de ônibus.

- É.. Existe credor demais, cobrador demais... Mas há compensações... Aqui tem de tudo... Se procurar com cuidado, é capaz até de achar gente equilibrada... Menos na Praça Barão... Vou pra lá conversar fiado.

Com estes e com pensamentos que tais, o homem se dirige calmamente para a praça mais movimentada da cidade.

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