O vazio

Por: Maria Luiza Salomão

Na frenética lida do dia a dia, não temos sentido o vazio dos tempos. Como diferenciar, então, um tempo pleno de um tempo branco?

Estamos imersos em sons, cores, sabores, letras, trânsitos emocionais intensos, mas fugazes. Grande metrópole é a alma humana, que precisa de um tipo de planejar, não lógico, mas sensível ao que não grita, ao que não desespera, mas queda abandonado, como os miseráveis de corpo e de espírito em qualquer metrópole do mundo. Quando a alma sofre de gigantismo de obras (ações e sensações, imediatismos), fica como a metrópole que só cresce, mas cresce mal: o centro de metrópoles, agigantadas no caos de interesses anti-humanos, costuma se deteriorar. A arquitetura de prédios, outrora funcionais e belos, apodrece por falta de cuidados e de interesses. O Passado, o que fez a metrópole crescer, fica em ruínas, mal se sabe a origem e o destino do seu crescimento apressado, caótico. Todos, poderosos e miseráveis, fogem para a periferia da metrópole, fugindo do passado de origem e do descontrole provocado por ambições impensadas, desmedidas.

A alma precisa de vazios, avenidas largas, praças sombreadas, flores no chão, bancos para contemplação solitária, espaços de intercâmbio entre os seus vários “eus”. A alma não aceita superpopulação, nem construções à revelia. A arquitetura da alma pede espaços vazios, tempos vazios, templos sagrados. Pede sonhos, que permitam a ação e a palavra transformadora, acolhedora.

Chagall, em um dos seus quadros, mostra um corpo de mulher separado da cabeça (À Rússia, aos asnos, aos outros, 1911-12). Qual o significado disso?, perguntaram. E ele: precisava de um vazio aqui (um buraco negro entre o corpo e a cabeça da mulher). Chagall usa de uma poética original, sonhante, quer o vazio entre o encantamento da mulher (cabeça a flutuar no espaço, voltada para uma luz misteriosa) e o corpo solto no ar, corpo de mulher a segurar um balde, ofício de leiteira. No espaço noturno, além do corpo e da cabeça da mulher, também vemos uma vaca no telhado, uma criança mamando na vaca, homem tirando leite da vaca, um pássaro noturno mal visto no negror da noite, algumas casas. Uma luz de muitas cores se esconde, ou se revela, na expressão da mulher leiteira. Leite da luz, leite da vaca, leite que a mulher dá. O título do quadro? Incompreensível. Chagall insiste no vazio entre a cabeça e o corpo da mulher leiteira, uma liberdade de expressão: o corpo da mulher é o de uma leiteira e a sua cabeça está impregnada pela luz. O quadro está no Museu de Arte Moderna Centre Georges Pompidou.

Chagall pintou, consistentemente, um mundo onírico, a despeito de seus contemporâneos - cubistas, surrealistas, simbolistas (Picasso, Dali, Mondigliani). Não sucumbiu à ânsia (ambição e pressão) pela quebra da tradição pictórica, do início do século XX. Criou, em si, um vazio, recriando, na via onírica, a infância na vila russa (completamente destruída), a alegria, a forma de amar, a reverência ao que lhe era sagrado. Viveu longos 97 anos.

Chagall entendia de ausências e vazios. Sonhava e, portanto, pairava no espaço e no tempo: preservou o que lhe era central na metrópole da alma, e vive, ainda, na juventude eterna dos seus sonhos, em cada obra.

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