Revelação

Por: Eny Miranda

O que me diz este cursor, piscando na tela em branco? Este mudo, inquieto, pequenino e persistente traço vertical, que me desafia... e me anima? O que quer (de mim) esta afiada lâmina, cortando, assim, provocativa, o que ainda nem é? Golpeando qualquer possibilidade de criação, de construção, de formação carmínica, versejante, neste vazio espaço? E o que dela espero?

Some e aparece, aparece e some, em rítmica verticalidade; risco volátil, esguio esboço, simples vulto a me instigar, a me incitar...

A me convidar para uma dança?

Meu coração se anima e começa a pulsar com ele. Resolvo, então, entrar inteira na sua cadência. Vibramos agora ao mesmo tempo, nos mesmos tempos. E, sem emitir qualquer som, cantamos uníssonos -mesmas notas, mesma frequência, mesma altura (os timbres, diferentes) - ou consonantes, acordados na perfeita harmonia do silêncio.

E nos atamos, e desatamos a dançar.

Volteamos, vibrando no ar, em arcos e círculos, e deslizamos em pequenas retas pulsáteis, desenhando letras que se enlaçam e valsam palavras que, por sua vez, se aproximam e se comunicam, afinam-se, relacionam-se no tempo e evoluem no espaço a sintaxe bailarina da evocação: imagens, formas, sentidos... E cantam, polifônicas, fugas, contrapontos, em novas e inaudíveis (mas sensíveis) composições, desenvolvendo des-concertantes coreografias poéticas.

No claro-escuro deste salão volátil não há limites para devaneios, para quiméricas sensações. Tudo vibra, tudo pulsa, tudo se cria e se transmuta, nasce e se evola em espirais: frases, paráfrases, metáforas, verbo, verso - reverso da folha gravada.

Tudo é sonho. Tudo poesia jamais inscrita, poemas jamais escritos, porque nunca - mas nunca - alcançáveis, aprisionáveis, impressionáveis, mesmo que no imponderável universo virtual.

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